Meu pai foi pisando duro até a sala com o peito estufando feito um touro.
Nem chegou a falar nada, só não tirava os olhos de cima do Rodrigo que ficou ainda mais branco do que já era.
No automático mesmo, meu irmão foi se levantando do sofá conforme meu pai se aproximava.
Eu mesmo, sem pensar, já fui indo atrás dele pra tentar evitar uma merda maior.
— Bom dia, pai... — Rodrigo gaguejou, segurando o braço direito como o meu moleque costumava fazer quando tava sem graça.
A resposta do meu pai veio com a mão.
O tapa que ele acertou no rosto do Rodrigo pegou em cheio e ecoou pela sala, me fazendo tremer.
Rodrigo caiu com tudo sobre o sofá.
Eu confesso que fiquei dividido porque eu não queria ver meu irmão apanhando, mas eu sabia que ele tinha feito por onde e também queria ver como ele reagiria. Uma coisa era ele estar comigo, num ambiente tranquilo, e me falar todas as coisas e promessas que tinha feito desde então, outra bem diferente, seria ver ele sendo testado daquela forma. Desde criança, o Rodrigo nunca lidou bem em ser corrigido daquela forma.
— Bom dia é o cacete, seu vagabundo safado! Seu moleque sem vergonha, sem futuro dos infernos! Era aqui que tu tava se escondendo, é?
Rodrigo continuou meio deitado sobre o sofá, sem falar nada.
— Vai se fazer de coitadinho agora, é?! — meu pai gritou, cutucando bruscamente as costas do Rodrigo que foi se arrastando pelo sofá, pra se afastar dele. — Naquele dia, tu era um leão, não era? Vem pra cima de mim de novo, chinelão safado, que tu vai ver quem que é homem aqui. Anda! Não foi homem pra bater no teu pai?! Bata de novo, moleque safado! Bata aqui, ó?! — e meu pai bateu no próprio rosto, se abaixando pra mais perto do Rodrigo que negou com a cabeça, envergonhado.
— Me desculpa, pai. Eu...
— Desculpa?! Tu tá merecido é de uma sova, guri, pra aprender a ser homem, que foi o que te faltou e...
— Pai, desculpa, eu sei que eu...
— Tu num sabe é de nada, porra! Eu tava era agoniado pra arrebentar tua fuça desde que tu saiu fugido de casa, mas é agora que tu aprende, seu moleque...
E fazendo cumprir a ameaça, meu pai se jogou pra cima dele, na ira... na ira, porque, à bem da verdade, meu pai nunca foi de bater na gente, tá ligado. Uns tapas, quando era mais novo, mas dado o histórico que ele próprio contava do que tinha passado lá no Rio Grande do Sul, ele nunca conseguiu nos dar uma "surra" de verdade. Meu pai era o tipo de sujeito que se fazia de casca grossa, mas depois de dois tapas, ele voltava todo arrependido, nos pedindo desculpas. Então, pra ele ter se entregue à raiva daquele jeito...
E me surpreendendo, o Rodrigo não revidou.
Ficou lá, calado, apenas tentando se defender.
Eu tolerei aquela merda por mais alguns segundos e puxei meu pai pra trás com tudo, pela camiseta.
— Me larga, Alexandre! — ele se sacudiu, feito uma criança, pra tentar se desvencilhar de mim. — Me larga que eu ainda não acabei, porra!
— Já deu, pai.
— Já deu caralho nenhum... e me diz tu também, seu safado — ele se virou pra mim, a cara vermelha feito um pimentão —, que inferno ele tá fazendo aqui? Tu tava esse tempo todo escondendo ele de mim, é?
— Se eu tivesse escondendo ele, eu não teria deixado o senhor entrar, né, pai?
— Ah! — ele jogou a mão pra trás com tudo e se afastou, indo na direção da cozinha.
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Declínio
Mysterie / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
