Esse é um exemplo comum, tá ligado, mas que a maioria das pessoas não repara bem dada as circunstâncias. Mais especificamente porque a face de bandido e perigoso era mais latente que qualquer outra. Que nem a cesta que, dentre inúmeras maçãs boas, uma única podre faz com que a cesta inteira pareça ruim.
Afinal, quem diria que o grande Capuava, defensor da preservação da imagem de respeito e imponência que o Comando deveria manter, segundo ele, estaria ali todo assustado por causa de uma "simples mulher"? Mano, minha língua tava coçando pra arruaçar com ele ali, mas me contive.
Ao contrário do filho-da-puta, eu frequentava o Botega o tempo todo e meus funcionários estavam ali; com respeito a minha imagem e ao Valdecir que tanto merecia, eu não quis deixar que um barraco se armasse. Especialmente porque, conhecendo a Suzana como eu conhecia, ela ia tacar o foda-se pra tudo e iria arregaçar com o Capuava e a menina ali dentro.
E ela também não era nenhuma florzinha indefesa.
Tá bom que isso não dava o direito do Capuava fazer ela de gato e sapato, mas não era de hoje que Deus e o mundo — inclusive eu mesmo — avisavam sobre o tipo de pessoa que o Capuava era e o que estava sempre fazendo. Mesmo assim, ela não desistia dele. E, longe de mim querer julgar, mas se ela aceitava isso por livre e espontânea vontade, que não viesse descontar nos outros suas frustrações.
— Mas você é um filho-da-puta mesmo, hein — reclamei, divido entre olhar pra ele e pra Suzana que parou diante de uma das mesas pra falar com um casal que estava ali. Eu não os conhecia. — Vem me trazer problema aqui na porta da minha empresa. Vai se foder.
— Ah, segura aí grandão que você não é o dono...
— Não, não, não, não — o interrompi, irritado. — Maluco... cala a porra dessa boca que pra mim você não vai ter a ousadia de querer argumentar tando todo errado. Comigo não.
Mermão, como é que a cega dessa mulher não tinha nos visto ainda?
Mano, eu não duvidaria que ela estava fingindo não ver para não admitir a vergonha de ser corna... quer dizer, antes corna no escuro do que corna conformada, né?
— Mas por que você tá errado? O que aconteceu? — a menina quis saber, toda confusa.
Capuava me olhou feio como se eu tivesse feito alguma merda.
Eu já ia salvar o rabo daquele otário, ele que se virasse para arranjar alguma desculpa pra menina.
— Você vai sair por trás — eu disse, me virando pro Valdecir que estava atrás do balcão.
— Por trás? — Capuava não entendeu. — Como assim?
Silenciosamente, eu chamei o Valdecir com a mão, enquanto a Suzana se demorava na conversa com o tal casal.
— O que foi? — quis saber Valdecir chegando até nós.
— Tira esses dois por trás, sem que a loira ali de blusa branca veja — falei no canto do ouvido do Valdecir que entendeu a deixa rapidamente e já foi conduzindo os dois na direção do balcão...
Quando Suzana se virou com tudo na nossa direção...
— E aí, Suzana — sorri, numa boa, caminhando até ela. — Por aqui de novo?
— Pra você ver — ela sorriu de volta.
— Atrás do tranqueira do Capuava? — perguntei. Não tinha como eu olhar para o lado e ver se eles já tinham sumido de vista.
— Do jeito que você fala, até parece que eu vivo em função dele.
Eu não digo nada, basta perguntarmos pros seus filhos... se é que eles se lembram da época em que você deixava eles trancados dentro de casa, com três, quatro anos, sozinhos, pra ir atrás do Capuava nos bailes de madrugada, fiquei a ponto de dizer.
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Declínio
Mystère / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
