Capítulo Noventa e Seis

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Dando a tragada final no cigarro, o joguei fora antes de entrar em casa e encontrei Mariana na sala, no sofá, assistindo um filme na tv. Era um daqueles filmes leves onde a mina se apaixona pelo maluco, após eles tretarem durante a primeira parte do filme, depois ele faz uma merda quando finalmente assume que se apaixonou por ela também e aí faz uma loucura no final pra poder recuperá-la. Eram tantos filmes nesse pique que eu pensava que eram todos feitos pela mesma equipe e só trocavam uns poucos detalhes aqui e ali e os atores também.

Ela gostava demais desse tipo de filme e assistia umas mil vezes.

E durante o tempo em que estávamos juntos, eu já tinha me ligado que ela sempre os repetia especialmente nos momentos em que estava pra baixo, tensa ou insegura com alguma coisa. Acho que o simples detalhe de saber como tudo ia correr — por já ter visto mil vezes — e que apesar dos problemas, sempre terminava bem, dava a ela o conforto que ela tanto queria nos momentos ruins.

Mariana não era o tipo de mulher que lidava bem com altos e baixos e problemas que fugissem do planejado. Ficava toda perdida sempre que algo escapava do controle, da ideia perfeita de como as coisas tinham que correr, que ela tinha na cabeça.

Eu só faltava me matar pra não permitir que ela passasse por isso.

Mas era foda com o tipo de vida que eu levava.

— Nossa, chegou mais cedo hoje — ela comentou, se ajeitando no sofá ao me notar, enquanto ajeitava o cabelo.

— Tava resolvendo um negócio com o Russo e daí apareceu o Marlinhos e você sabe que o cara fala mais do que a boca. Era até pra eu chegar mais cedo, mas o cara ficou buzinando no meu ouvido que só foi parar quando eu mandei ele se foder — e dei risada, me sentando ao lado dela e estendendo a sacola que eu tinha trazido.

— É o que? — meio tímida, ela pegou a sacola, mas não abriu.

— Acho que eu esqueci, minha linda? — passei a mão pelo rosto dela que ficou ainda mais envergonhada, eu gostava demais daquilo, cara. — Foi a primeira coisa que eu fiz, que você tava doida pra comer.

— Mas é tão caro esse chocolate, Alexandre — ela foi finalmente pegando da sacola.

— Que caro nada. Eu tenho que tentar compensar esses dias que eu passei fora e te deixei sozinha aqui — fiquei tenso. Sem que fosse preciso eu ou ela dizermos alguma coisa, Mariana tinha crescido na quebrada e já me conhecia de vista. Ela sabia exatamente o que eu fazia, mas não comentava nada a respeito e, cuzão como eu era nesse sentido, eu me sentia melhor assim. — Eu só queria te perguntar se eu posso pegar um, porque eu vi o negócio lá e fui ficando com vontade de comer.

— Quê isso? — ela riu, abrindo a caixa. — Você pode pegar quantos você quiser.

— Não, não, não. Um só tá bom, você sabe que eu não gosto muito de doce, mas pega um você primeiro.

— Ai, todo cavalheiro — ela tirou sarro, pegando um. Só depois que eu fui pegar pra mim.

Porém, ela tava meio estranha.

Pegou, mastigou e se virou pra tv, a garganta trabalhando mais do que o normal pra um bombom daquele tamanho. Ela parecia até estar meio enjoada.

— Ei, você tá bem? — puxei o rosto dela pra mim e dei uma conferida. Até botar a mão na testa dela, pra me certificar, eu fiz. A temperatura tava boa.

— Tô — ela tentou sorrir, mas não me convenceu.

— Parece que tá passando mal, tá toda dura, tensa. Aconteceu alguma coisa?

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora