Cadê o Gabriel, porra?
Foi a primeira e única coisa que eu pude pensar, mano, enquanto o mundo parecia estar acabando.
Que desgraça tinha acontecido?
Eu sentia como se meu corpo inteiro estivesse dormente e eu fosse cair a qualquer momento.
Olhei em volta, mas era gente demais; alguns correndo, vários gritando e quase todo mundo tão perdido quanto eu mesmo estava. Nada do moleque. Senti algo apertando minha perna e vi que era a Milla me segurando, sentada no chão e com os olhos tão arregalados que parecia que eles iriam rolar pelo chão.
A explosão tinha vindo da entrada, ou no caminho pra ela, a partir de onde estávamos — era o que os meus ouvidos me diziam — e tive a confirmação disso quando tentei prestar atenção lá.
A fumaça cinza, meio esbranquiçada, ainda se avolumava pra cima e eu via pedaços de alguma coisa pairando ao seu redor ao mesmo tempo que havia pedaços de concreto ao redor de onde eu tinha certeza que havia uma construção como banheiro ou acesso pra molecada sair do campo e entrar dentro da associação.
Só que tava confuso que só a porra, não dava pra ter certeza de nada. Sei lá, mano, de repente, eu já não conseguia formar imagem alguma de como era a associação antes da explosão.
Porque, ao menos disso, eu tinha plena certeza: havia sido uma explosão. E eu meio que era familiarizado ao som e àquele tipo específico de fumaça; eu não tinha visto uma só fagulha; um brilho que fosse que viesse a sugerir fogo.
Mas que se foda aquilo, porra. Onde é que tava o moleque?
Me virei de novo pra onde o moleque tava e não vi sinal nenhum dele, mas decidi ir até lá mesmo assim, correndo e tendo que empurrar uns dois loucos que corriam na direção da explosão.
— Me solta, caralho! — gritei pra Milla que tinha se agarrado a mim feito um macaco. — Eu preciso achar o Gabriel!
Assentindo, trêmula, ela largou a minha perna e meio que ergueu os braços a altura do rosto, mantendo eles rígidos como se fosse perder o controle e cair, sendo que a maluca tava sentada no chão.
Tava em choque? Eu só conseguia pensar em encontrar o moleque.
— Gabriel, Gabriel, Gabriel! — eu gritava, olhando pra tudo quanto era lado, mas eu nem conseguia discernir direito a cara das pessoas, como se eu tivesse num sonho, 'cê é louco. — Cadê você, moleque?!
— Ele... ele tava por aqui, agora pouco, não tava? Tava, não tava? — Milla me puxou de leve pelo ombro. A cara dela chega tremia, enquanto ela virava a cabeça de lá pra cá, apavorada.
— Gabriel! — continuei gritando, ficando mais apavorado a cada segundo que se passava e eu não via o rosto do meu moleque.
— Eu tô aqui, eu tô aqui — era ele, graças a Deus.
O moleque tava debaixo de uma das mesas.
Me abaixei com tudo.
— Você tá bem? Se machucou? — quis saber.
— Não, graças a Deus não — ele falou, olhando desconfiado pros lados. — O quê que foi isso? Será que foi um gás que explodiu?
— Não sei... — também nem sabia porque eu tinha mentido.
— Alexandre, isso foi uma...? — Milla ajeitou o cabelo ao meu lado. Também tinha se abaixado. Embora parecesse um pouco mais "calma", ela soava mais como se tivesse se esquecido de quem era.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
