Capítulo Oitenta e Quatro

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'Cê vai beber, vai chorar...

Tarcísio do Acordeon - Rolê


Pela tela de segurança e, é claro, pelo distintivo pendendo do pescoço contra a camisa polo branca.

Eu tinha uma leve ideia do motivo que o tinha levado a minha casa, mas apesar da merda que tinha acontecido há pouco com o Rodrigo, eu me descobri bem suavão pra trocar uma ideia com o civil.

Quando tinha visto ele pela tela de segurança, meio que senti que já o conhecia de algum lugar, mas assim que abri a porta menor ao lado do portão da garagem, confirmei que tinha me enganado.

Era um cara até que alto, passando aí de um metro e oitenta, careca e de cavanhaque. Era claro, mas tinha aquele toque bronzeado na pele e os braços do maluco eram grandes demais para o que seria de se esperar de um civil que eu sabia que não tinham a menor necessidade de fazer esforço físico durante o expediente, que não fosse o breve percurso do carro para a delegacia ou do carro pra padaria, que o arrombado do Raul não me deixasse mentir.

— Pois não? — perguntei pra ele.

— Boa tarde — abrindo um sorriso ao estender a mão pra me cumprimentar, o maluco chega pareceu se transformar numa outra pessoa.

— Boa tarde — retribuí, apertando a mão dele.

— Alexandre Stein? — ele pareceu confuso, mas soube pronunciar o sobrenome de fresco do meu pai direito. — Ou Alexandre Bellardo, ou de Castro... ou talvez seja melhor falar o nome completo, não é?

— Fica à vontade pra chamar do jeito que quiser, amigo, mas sou eu sim.

— Opa, prazer, grande — e tornou a apertar minha mão de novo. — Sou o detetive Flávio.

— Prazer — esbocei um sorriso. — É... é sobre o meu cunhado?

— Isso mesmo, Alexandre. Perdão, posso te chamar assim?

— Pode, pode, cara. Fica de boa.

— Ok... então, Alexandre, é sobre o marido da sua irmã sim.

— Alguma novidade?

Ele comprimiu os lábios.

— Infelizmente nenhuma. Na verdade, eu só tô conversando com todo mundo que tinha alguma ligação com ele, pra poder ajudar, porque, às vezes, alguém ouviu ele falando alguma coisa ou viu algo, mas pensa que não significa nada e pode significar tudo.

— Tá certo, cara — cocei a cabeça, me mostrando confuso. — Eu fico até mais aliviado; não é nem falando do teu trampo, cara, mas se passou esse tempo todo desde que ele sumiu e a gente não ficou sabendo muita coisa da investigação que eu até já tava pensando que a polícia tinha deixado de mão.

— Eu entendo, Alexandre — ele abriu um sorriso resignado. — O que acontece é que, lamentavelmente, temos casos demais e pessoal de menos pra acompanhar.

— Eu sei, cara. É foda. Eu tenho um amigo que é civil também e ele tá sempre me falando isso.

— Sério? Como é o nome dele, será que eu conheço?

— O nome dele é Raul, folgadinho pra caralho — me permiti uma risada meio triste. — Um pouco mais baixo que você, cabelo escuro, tem uma tatuagem aqui no braço — e passei a mão pelo meu braço pra ilustrar.

— É, eu não me lembro de nenhum Raul.

— O pai dele também foi civil por muitos anos, mas se aposentou. O Raul é do trinta e um, ali na Conselheiro Carrão, conhece?

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora