Eu parei.
Nem tinha como não parar, vendo aquela porra.
Olhando o bagulho ali no chão, uma foto sobre a outra, tudo desajeitado, pelo jeito como o arrombado tinha jogado, sei lá, mano... parecia que aquilo não tinha acontecido de verdade.
Nunca fui um sujeito de tirar fotos.
Normalmente, eu saía nas fotos que outras pessoas tiravam, como as de festas em famílias ou nos rolê com os parceiros mesmo, onde sempre tinha um que curtia essa palhaçada de tirar uma foto a cada piscada que dava. Se pá, a última foto que eu tinha tirado de mim mesmo, que era a que eu usava no WhatsApp tinha uns três anos, mais ou menos.
E olhando ali mais uma foto minha tirada por uma outra pessoa, foi como se eu não fosse capaz de me reconhecer.
Em uma delas, Robson e eu estávamos de pé, conversando; eu bem mais alto que ele, de lado, que bagulho sinistro.
Em outra, eu apontava a peça pra cara dele e tinha uma outra ainda que eu ainda estava com a peça em mãos, enquanto ele estava caído no chão, o bagulho formando uma sequência. Acho que ele tirou naquela função da câmera que dispara uma sequência, uma atrás da outra.
— Sabe, eu fiquei muito ansioso pra saber o que iria acontecer quando você chegasse lá e descobrisse que não era eu que tava te esperando — ele falou, mas continuei olhando as fotos, tentando trazer à memória aquele momento, tentando me enxergar naquelas imagens. — E não era nem ansiedade de imaginar como seria a sua cara de choque quando você visse que era o seu irmão que tava no meu lugar, mas sim curiosidade de ver o que você faria. Porque se tem uma coisa que tem tornado essa nossa relação realmente interessante é a sua imprevisibilidade, Alexandre. Porque isso aqui... — ele apontou para as fotos. — Isso aqui sim me pegou de surpresa quando aconteceu. Isso aqui... eu não imaginava, de jeito nenhum, que uma coisa assim fosse acontecer. Foi tão... nossa, cara... foi tão de repente que até hoje eu não acredito que você simplesmente sacou o revólver e pá, sem dó nem piedade. No cara que era seu amigo desde a adolescência. Que loucura.
O filho-da-puta sorria muito pra quem se dizia chocado.
— Veja bem, eu não vou dizer que tinha certeza absoluta que você tava de plano pra me pegar numa emboscada, mas digamos que eu tinha uma forte sensação de que isso pudesse acontecer — ele prosseguiu, dando uns passos na minha direção. — Você é bastante cuidadoso, Alexandre, não quero que se sinta menosprezado por isso, mas quando você se mostrou um pouco mais solícito que o normal para me pagar o dinheiro, a minha suspeita que já andava em tensão, aumentou um pouquinho.
Eu ainda me lembrava da ira que tinha possuído minha cabeça uma hora atrás, quando eu vi o meu próprio irmão me esperando no lugar daquele verme, mas ali diante dele, essa raiva se converteu em cansaço. Eu já não conseguia sentir aquela raiva daquele maluco, porque isso já era o esperado. Era o modo dele de agir, era quem ele era comigo, então, o que usar de combustível pra nutrir raiva dele?
Já com o Rodrigo...
— E eu confesso que não estou muito por dentro de como anda a relação entre você e seu irmão — ele seguiu falando. — Mas eu já tinha reparado que era um pouco conturbada sim, mas enfim... eu testei as possibilidades, averiguei muito por cima se era possível tirar alguma vantagem de tudo isso e quando seu irmão se mostrou bem disposto a me ajudar com isso, o resto é história, que você pôde ver essa noite.
— E aí você esperava que terminasse da mesma forma que terminou com o Robson? — indaguei, cansado pra caralho de tudo aquilo.
— Eu não vou mentir e dizer que desconsiderava completamente esse cenário. Era uma possibilidade sim, pra mim. Bem provável, inclusive. Mas foi isso, justamente isso que tornou essa situação tão estimulante pra mim, cara. Não, é sério. Você me olha assim, mas eu tô falando sério. Sem brincadeira nenhuma, até o último instante, eu não conseguia cravar o que iria acontecer. Eu não conseguia sequer considerar uma possibilidade mais provável que a outra, eu tava completamente à deriva, pronto pra ser surpreendido.
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Declínio
Tajemnica / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
