Capítulo Cento e Quarenta e Sete

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— Boa noite...? — a tia do Gabriel apareceu na porta no meio do quintal, que eu já sabia que levava à cozinha. Só soube que era ela por conta da voz.

— Boa noite, Dona Regina. Como é que a senhora tá?

— Ah, oi, Alexandre... — ela finalmente saiu de vez pro quintal e veio andando na minha direção. — A gente já conversou sobre esse "senhora", mas tô bem sim e você, como você tá?

— Tô bem sim, graças a Deus — forcei um sorriso. — E o Gabriel... ele tá aí?

Ela abriu a boca, olhou pra trás, meio receosa, mas findou por falar:

— Tá... tá sim. Ele tá lá dentro.

— A senhora deixaria eu entrar pra eu poder conversar com ele?

Ela ergueu as sobrancelhas, olhou pro lado...

— É... claro, claro. Com certeza. Pode entrar, o portão tá aberto.

— Obrigado — entrei, fechando o portão cuidadosamente. — Com licença.

— Pode vir — ela foi na frente e encontrei o marido dela na cozinha, sentado à mesa. Não estavam jantando, por sorte.

— Opa, boa noite, patrão — apertei a mão do sujeito que retribuiu amistosamente.

— Faz tempo que eu não te vejo, homem. E aí, tudo certo?

— Tamo' indo. E o Gabriel, ele...?

— Ele tá no quarto da minha filha — a tia dele falou.

— Vou lá... com licença.

E, bom, além da sorte de ter conseguido entrar sem nenhum problema e o moleque estar lá, o encontrei sozinho no quarto que ficava no meio do corredor que se iniciava lá na cozinha.

— Eu acho que eu nem preciso perguntar o que você tá fazendo aqui, né Alexandre? — ele falou assim que apareci na porta. — É... isso tá ficando tão repetitivo. É sempre a primeira coisa que eu pergunto... e você pode até usar palavras diferentes, mas a resposta continua sendo a mesma.

De cara, vi que o quarto tinha porta e depois de me pôr pra dentro, a fechei.

Eu me sentia mal?

Eu me sentia péssimo, tão zoado que, na moral, eu chega sentia uma espécie de enjoo, sei nem explicar direito, só sei que eu me sentia plenamente capaz de vomitar a qualquer momento, que bagulho doido.

Mas, ao mesmo tempo que eu tinha essa coisa ruim no meu corpo depois de tudo o que eu tinha visto e escutado naquele dia de merda, estar num quarto fechado, só ele e eu... eu era um lixo mesmo e nunca deixaria de ser. O verme do federal tava certo quando tinha dito que eu não valia o chão que pisava. Mesmo depois de tudo e do que eu tava sentindo, a primeira coisa que me veio à cabeça estando a sós ali com ele foi uma vontade do caralho de ir pra cima do meu moleque e traçar ele ali naquela cama como se fosse a última trepada da minha vida.

E mesmo ele tendo aberto mais os olhos, me instando a falar, eu só consegui ficar ali, paradão, olhando pra ele.

Era o que eu precisava, mano.

Basicamente — tirando aquela esperança inútil que, admitindo ou não, tinha sempre um lugar ali dentro de mim, por mais que eu tentasse esconder —, eu tava ali pra aquilo: pra vê-lo. Pra ver o meu moleque. Pra confirmar.

Isso, porra.

Confirmar.

Vendo que eu não iria falar nada, ele suspirou e disse:

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora