— Tá tudo pronto por aqui, rapaz — disse o guarda... não, o monitor que tinha sido escolhido pra me ajudar com a entrada. Era um cara meio gordinho, a pele morena, acho que parda, e ele tinha uma cara de quem sempre tava brincando. — Vou te levar lá pra ce... bom, tu pode chamar de quarto, dormitório, sei lá, o que tu quiser. O que não vai te faltar é tempo pra decidir essas coisas.
Com o pacote nas mãos, ele foi saindo da sala e eu soube que era pra ir atrás dele, mas minha bunda tinha grudado no banco e eu não consegui sair do lugar.
— Anda, moleque — ele exclamou, parando na entrada da sala assim que notou que eu tinha ficado pra trás.
— É que... moço, é que ninguém...
— Moço é o escambau — ele me cortou na hora; engraçado que o ar de brincadeira ainda tava lá na cara dele. — Pra tu, é senhor, entendeu?
— Desculpa... senhor, é que eu tava falando que... ninguém me explicou como é que tem que... como é que eu chego lá, o que eu posso, o que eu não posso fazer, essas coisas... eu nunca...
Ele tornou a me cortar, rindo alto da minha cara.
— Tu tá tirando com a minha cara, moleque, não tá? — ele me perguntou. — Pra tu ter sido mandado pra cá, tu não se preocupou com o que pode e o que não pode fazer não, moleque. Tu não foi homem pra se meter na encrenca que te botou aqui? Vai ter que ser homem pra poder desbravar esse admirável mundo novo que te espera aqui dentro. Vai por mim, que tu vai precisar. Agora, levanta o rabo daí e anda logo que aqui não tem tempo pra palhaçada não, escutou, caralho?
Calado, eu confirmei com a cabeça e fui indo atrás dele.
Conforme íamos passando pelos corredores, deu pra ver que tinha uma penca de moleque no que me parecia ser um pátio, parecido com o pátio de intervalo da escola... será que eu vou continuar estudando aqui dentro? Me perguntei.
Enfim, ele me levou até um dos quartos após ter dado o maior rolê pelo lugar e durante o caminho todo, eu fiquei pensando que ele ia tipo me apresentar o que era cada lugar, mas não rolou e apenas parou na frente da porta — que na verdade era mais um portão — e acenou com a cabeça pra que eu entrasse. Tinha duas beliches feitas de tijolos pintados com colchões. Pelo menos, isso.
— Teu dormitório é esse — finalmente falou.
— Mas vo... mas o senhor não disse que não importava como eu chamasse o...
Ele me olhou como se eu fosse um mongo do caralho e eu acho que tava sendo um mesmo com uma pergunta daquelas, então, calei a boca.
— Onde eu posso dormir?
— Isso aí é problema teu e dos teus colegas. Te vira, menino — empurrando o pacote com tudo nas minhas mãos, ele me empurrou pra dentro. — Guarda tuas coisas aí e bora que agora tá na hora de ficar lá fora.
Acho que eu podia me considerar ligeiro o suficiente pra saber que depois de não me ajudar com duas dúvidas que eu tinha, ele não iria me ajudar com uma terceira, então, fiquei tenso, sem ter certeza se eu poderia colocar o pacote em uma das prateleiras de alvenaria que separavam uma beliche da outra.
— Caralho, moleque! — ele berrou, batendo as mãos nas coxas. — Mas tu é lerdo que só a porra. Tá fodido aqui dentro — e começou a rir. — Larga essa merda aí onde tu quiser e caminha que nesse horário não pode ficar aqui dentro. Anda, porra!
Sem pensar muito, deixei o pacote na última prateleira que era a única vazia e o segui de volta para o pátio.
— Trata de guardar aí na tua cabeça o número do seu quarto porque não é pra vir me encher o saco se esquecer depois, tô te avisando.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
