Capítulo Noventa

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Não, mano.

Aquilo não era nóia da minha cabeça, aquele inseto tava realmente tentando agarrar o moleque, mas... assim do nada e... e o foda que mesmo um pouco zonzo, eu me liguei na hora que não era tentando agarrar o moleque por causa de treta ou qualquer outra porra assim, o sujeito tava tentando agarrar o moleque era na maldade mesmo.

Daí, maluco... eu não vi mais nada além dos dois e fui pra cima mesmo.

Cheguei pelas costas do cuzão que ainda tentava agarrar o Gabriel e virei a long neck, sem nem querer saber, na cabeça dele que tropicou pra frente, mas não chegou a cair — pelo menos, tinha sido afastado do moleque na marra.

— Você tá ficando louco, seu filho-da-puta?! — gritei pra ele que, atordoado, tentou se virar na minha direção, mas era poucas ideia, irmão. Sentei meu pé nas costas dele e aí sim ele tombou, se esborrachando na areia.

Subi em cima dele pra não dar o menor espaço pra reação, apertei o pescoço do desgraçado e desci o primeiro soco, segurando a garrafa ainda.

A luz vinda da festa era forte o bastante pra eu poder ver aquele lixo direito.

O rosto não me lembrava ninguém — beleza que meio alto como eu tava, eu não podia confiar cegamente nas coisas que via, mas... mas a raiva que se impregnou na minha garganta havia me dado uma certa resolução, mano. Clara o suficiente pra eu tratar de gravar as feições daquele filho-da-puta.

O maluco era mais alto que o moleque, tinha a pele meio clara, meio marcada do sol, um pouco de entrada no cabelo escuro e magro. Apesar de tudo parecer normal, tinha algo nele que me causava estranheza — e aí sim eu podia culpar a bebida, porque não tive muita certeza disso.

Ele tava gorgolejando feito um pato conforme eu esmagava a garganta dele com uma só mão, tentando se debater pra sair debaixo de mim, mas com meu peso? Nunca que ele conseguiria.

Desajeitado que só a porra — maldita bebida do caralho —, eu tentei acertar a garrafa na cara dele de novo, mas fiz de mal jeito e quebrei o vidro contra a areia. Se bem que isso me pareceu ainda melhor, já que parte da garrafa permaneceu de boa na minha mão e com as pontas irregulares que o vidro ganhou ao se quebrar, eu podia bagunçar o sujeito legal.

Podia, né?

Fiquei só no veneno, porque antes de afundar as pontas contra a cara dele, estavam puxando meu braço pra trás e eu ainda tinha percepção o bastante pra saber que o moleque não teria força pra me tirar de cima do arrombado como tavam fazendo.

Nem fiquei de pé direito e já me vi cercado por vários malucos.

— Me solta, caralho! — gritei, tentando sacolejar meus braços.

— Fica calmo, meu amigo — um deles pediu.

— Amigo é a minha pica, maluco! — descendo meu braço com tudo, consegui me livrar do toque deles.

Os outros sujeitos que tinham se juntado à confusão, se propuseram a botar de pé o desgraçado que, meio atordoado, conseguiu se erguer, evitando de me olhar.

— Você tá bem, cara? — um deles perguntou pro lixo.

Dei risada.

— E ainda vão querer saber como é que esse filho-da-puta tá? — entrei no meio, tentando ir na direção dele, mas outra vez, aquele bando de parasita me puxaram pelos meus braços e me detiveram, vai se foder. — Já falei pra me soltar, porra! Ele devia era tá no chão, caralho! No mínimo apagado, pra largar de ser lixo.

— Mas o que foi que aconteceu? — um dos caras que tava me segurando perguntou.

— Esse arrombado tava atacando o... — então, me dei conta. — Cadê o moleque? — olhei de lá pra cá, de cá pra lá, sentindo o desespero crescer no meu peito, até finalmente vê-lo um pouco mais afastado na direção do mar, com a mão no peito e uma expressão de pavor no rosto, enquanto olhava pro desgraçado. — Moleque? — tentei ir na direção dele... tentei, né? Porque aqueles vacilões não me largavam. — Caralho, mano! Me solta nessa desgraça!

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora