Capítulo Cento e Cinquenta e Três

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— Você que mandou o Paiol pegar ela e...

— Alemão, nem tem por que a gente debater esse...

— Eu não tô perguntando, eu tô afirmando que foi você que mandou ele levar ela — o interrompi. — Isso já ficou bem claro, não tem o que se debater.

— Se ainda houvesse dúvidas ou não, a questão aqui não é se eu queria que ele levasse ela pra onde quer que fosse. O que eu não entendo é porque você não deixou.

— O que você ia fazer com ela?

— E isso importa?

— Se eu não deixei o Paiol levar ela, tá mais do que na cara que pra mim importa.

— Por quê? — ele arregalou os olhos pra mim, confuso. — O quê que você tem com ela?

Calmamente, tirei um cigarro do bolso também, o acendi e o encarei por alguns instantes, enquanto a fumaça subia e descia pela minha garganta.

— Eu sei que a Milla é uma das pessoas que tá te passando informação do Café — falei, soprando a fumaça pro alto, mas sem deixar de encará-lo.

— Ela te falou isso?

— Ah, qual foi a fita, Kalil? — me estressei. — É sério mesmo que você vai querer vir de joguinho pra cima de mim agora? Vai se foder.

Ele fechou os olhos, apertando o topo do nariz que os separava, se rendendo.

— Depois fica aí resmungando, feito um filho-da-puta, reclamando que eu tô sempre de desconfiança pro teu lado, sempre com um pé atrás, como se eu não tivesse motivos pra isso — desabafei. — E não. Não foi ela que me contou — menti —, mas você tinha razão: eu mantinha um pé atrás com você. E vendo tudo o que aconteceu, mais do que justo, não acha? Porque você tinha uma pessoa como a Milla, que dormia junto com o Café e tava sempre me vendo lá com o marido dela e nem pensou em me contar. Ou da vez que você matou aquele moleque que trampava com o Café e me viu, e aí eu te perguntei o que você pretendia fazer e você veio com aquele papo de merda: "logo mais você vai saber"... e o que foi que você fez? Tava era planejando a fuga dos caras lá de Hortolândia, usou um dos meus caminhões sem me avisar e aí quando eu te cobrei sobre isso, teve a cara de pau de falar que na correria, se esqueceu de me avisar, quando eu já tinha te perguntado muito antes o que você tava planejando e você não quis me contar.

Kalil suspirou, pegou o cigarro que tinha entre os dedos e o deixou sobre o cinzeiro que, convenientemente, tava sobre a mesa de canto ao nosso lado.

— Tudo bem, Alemão — ele entoou, evitando de me olhar. — Eu pisei na bola...

— Pronto — abri os braços, forçando um sorriso. — Pisou na bola. Problema resolvido.

— Cara, a gente não vai chegar a lugar nenhum levando as coisas nesse...

— Se você tá pensando que eu tô só querendo botar pra fora a minha frustração de ter sido deixado de lado em vários assuntos importantes, pode poupar tua saliva, irmão — o interrompi calmamente. — Se você teve motivos, se foi descuido ou o caralho que quer que seja, não me importa. Não importa.

Ele não falou nada. Ficou apenas me encarando.

— Talvez você esteja sendo arrogante demais pensando que eu não iria me incomodar com isso ou não esteja vendo de verdade o que tá acontecendo, mas eu já tô calejado demais pra isso, Kalil — falei.

— Não entendi.

— Tá se repetindo a mesma merda que antecedeu a bagunça lá em Venceslau, onde eu quase me fodi na mão dos teus caras.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora