E se eu tivesse outra chance essa noite?
Big Pineapple – Another Chance
— Opa, e aí, moleque... tá por aqui — eu sorri, cara, em partes por nervoso e por animação de ter a chance de fazer o que eu queria por ali, parando na frente deles, me preocupando em cumprimentar o Gabriel primeiro.
O moleque me olhou como se eu fosse uma assombração.
Será que eu tô certo fazendo isso?
Eu sabia que não tava, mas eu tava era tacando o foda-se pra isso também.
— Nossa... oi, Alexandre — Gabriel engoliu em seco e me olhou como se eu fosse seu pai e tivesse acabado de pegá-lo no pulo fazendo alguma merda. Bom, eu podia dizer que pra mim era uma merda o que tava acontecendo ali. — Logo você por aqui...
— É, eu tive que pegar um negócio ali antes que fechasse — me dei conta que eu ainda estava apertando a mão dele e me dei conta também que a Maira poderia ter dito a ele que eu fui deixar ela lá na faculdade... ah, mano, eu tava era cagando pra coerência naquele momento. E me virei pro sujeito ao lado. — E o seu colega aí...? Acho que eu não conheço.
— Ah, esse aqui é o William. Ele faz faculdade comigo e com a Maira.
Eu sabia que não tinha me enganado.
O filho-da-puta era mesmo o bombadinho que eu tinha visto naquele dia e vê-lo agora assim tão de perto era o que eu precisava pra guardar sua cara.
Cuzão ou não, eu tinha que admitir que o maluco não era feio. Tinha o rosto lisinho — o que martelou na minha cabeça a ideia de que, talvez, estivesse mais do que na hora de arrancar aquela barba da cara —, os olhos eram bem suaves e a pele dele sem nenhuma marca ou mancha pra contar história, ainda que ele fosse um palmo e meio mais baixo que eu, talvez mais. Eu nunca fui bom em medir essas coisas.
Mesmo assim, tentei não me abalar.
— William... — entoei, apertando a mão dele com tudo.
— Tudo bom, cara? — ele tentou se mostrar firme, mas a voz de bundão não permitiu. Porra, cara... não que ele tivesse voz de viado, mas sei lá, era uma voz que eu esperava encontrar num moleque de quinze, dezesseis anos, não em um maluco que me parecia não tão longe dos trinta.
— Quantos anos você tem, irmão? — perguntei.
— Vinte e seis.
Eu dei uma risada curta.
O maluco ficou sem graça pra caralho. Eu gostava assim.
— O que foi? — Gabriel perguntou, receoso.
— Pela sua voz, eu pensei que você tivesse uns vinte, sei lá.
— Isso é de família mesmo — ele riu pouco.
Pau no seu cu e no da sua família, filho-da-puta, eu quis tanto dizer, mas eu só conseguia pensar na reação que o Gabriel teria.
Mermão, eu só precisava fazer com que o Gabriel se afastasse, pra ir ali na banquinha, comprar um sorvete, dar uma volta, sei lá, qualquer porra que me desse uns dois minutinhos a sós com esse comédia do caralho e eu teria todos os meus problemas resolvidos. Todos, cara. Todos.
Tentando me concentrar no que realmente importava, me virei pro Gabriel e falei:
— E você, filho, vai fazer o que hoje? Não pensa que eu esqueci o rolê que você tá me devendo. Lembra não?
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
