Capítulo Cento e Dois

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— Lá, você me derrubou porque me pegou na trairagem, mas aqui eu tô preparado — cheio de si, ele tentou passar pelo primo do Gabriel que se manteve firme entre nós dois.

— Que trairagem o que, caralho? Eu te derrubei de frente, maluco, depois de ter te dado uns dois empurrões. Caiu porque é um frouxo do caralho.

— E você é muito homem, né? — ele passou pelo Vinicius, querendo me peitar, mas não chegou a encostar em mim.

— Ih, Emerson, qual foi a fita? — exasperado, Vinicius tentou se interpor entre nós dois, afastando o vacilão. — O Alemão chegou aqui de boa, ele é praticamente da família, mano...

— Chegou de boa agora, porque vocês tão tudo aqui — ele quase gritou. Indicando a própria cara com o dedo, ele continuou: — foi ele que me fez isso, porque eu tava tentando proteger o seu primo!

— Proteger o Gabriel do quê, caralho? — dessa vez, eu que avancei um passo na direção dele, mas o Vinicius continuou tentando nos manter distantes um do outro.

— De você. Não vem se fazer de doido aqui não, porque ela tava lá — e apontou pra prima mais velha do Gabriel. — Tava falando um monte pro coitado, ameaçando ele, que se não fosse eu me meter no meio, vai saber o que você tinha feito.

— Cara... na moral, eu falei que eu não quero confusão...

— Então some daqui — ele me cortou. — Se você não quer confusão, vai embora!

— Se não você vai... — fazer o que? Quase perguntei, mas me controlei a tempo. Eu tava tentando agir do jeito certo, mano. Eu tava tentando não me entregar a raiva e terminar de arregaçar a fuça daquele arrombado do caralho, mas tava tão difícil, mas tão difícil. — Cara... eu nem te conheço, você nem me conhece. E eu não tava falando um monte pro moleque. Eu nunca ameacei, nunca nem xinguei ele, não que isso seja da sua conta. O que aconteceu ali, foi que ele e eu, a gente tava resolvendo um assunto que era nosso, não tinha ninguém ameaçando ninguém, entendeu? Então, se você não tem ninguém pra você poder bancar o protetor, arrume, parceiro, sai por aí atrás que você encontra, mas o moleque não, entendeu? Porque se tem alguém aqui que vai proteger ele, sou eu, caralho — e bati no meu peito.

— É tão protetor que ele voltou foi com a gente e não com você — ele abriu um sorriso, fazendo uma das cicatrizes parecer ainda mais vermelha. — Porque se não fosse a gente tá ali, você tinha arrastado ele contra a vontade do coitado. Só que eu tô aqui e eu tô dizendo que você não vai levar ele pra sei lá onde, contra a vontade dele. E pode me olhar com a cara feia que você quiser, que eu não tenho medo de bandidinho não, viu?

— Dá uma segurada, Emerson — Vinicius falou bem baixinho.

— Quem tem que segurar aqui é ele — o maluco me apontou. — Que só porque é bandido, acha que pode fazer aqui dentro o que bem quiser, mas não é assim que funciona não. Você conhece uns caras, eu também conheço.

Eu dei risada.

Acontecesse o que acontecesse, ninguém poderia dizer que eu não tentei resolver as coisas através da conversa.

— Pode rir, cara. Ri à vontade, que você se acha o tal, mas você não é merda nenhuma, seu nóia do caralho.

— Gente, sem confusão, por favor. Não vamos resolver as coisas assim — a prima mais velha do moleque apareceu com tudo, tentando puxar o vacilão pra trás com a ajuda do outro cara que eu não conhecia. Eu apenas fiquei olhando pra ele com uma sugestão de sorriso a nascer no rosto.

Mas não porque eu tava achando graça naquilo, mas sim porque eu não fazia ideia de como lidar com uma porra daquelas sem ser na porrada.

— Mas que confusão é essa aqui? — a tia do moleque apareceu no portão, com a filha mais nova e o Gabriel do lado.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora