Mas uma mãe chora porque perdeu seu filho
Olympic Ayres – Waiting
Vários carros.
Eu tinha deixado o meu carro em casa e tava indo na IX35 do Russo junto com ele e o Raul.
Era uma tarde bonita.
Algumas nuvens ponteando o céu, um clima fresco e a mata por toda a trilha parecia cheia de vida.
A rapaziada foi encostar o carro bem no final da trilha, que tava estranha pra caralho, diga-se de passagem, porque parecia que a terra tava brotando por baixo do asfalto e voltando a tomar conta do lugar.
Fomos os primeiros a descer e o Russo foi nos conduzindo até o topo do bagulho, enquanto acendia um cigarro. Se ouvia uns piados aqui e ali dos pássaros e o restolhar das árvores, mas até o riscado do isqueiro dele pareceu integrar o ambiente. Toda aquela atmosfera me trouxe uma sensação reconfortante. Fazia muito tempo que eu não botava os pés ali.
Havia vários lugares como aquele em São Paulo... se bem que ali já não era exatamente São Paulo. Mas aquele, em específico, era onde o bagulho esquentava mesmo, o que foi me dando uma boa perspectiva do que tava por vir. E o motivo disso, era por conta da topografia do lugar: o topo do morro era mais aberto, mas por todo o seu entorno, a mata era densa, com árvores altas e uma trilha sinuosa que dava voltas que só a porra, o que dificultava bastante ser pego de surpresa por ali, caso acontecesse alguma merda, em grande parte porque havia várias rotas partindo do topo.
E quando enfim chegamos lá, vi que não estava muito diferente desde a minha última visita. Um campo aberto, com mato baixo, algumas pedras e duas únicas árvores que disputavam espaço entre si, com parte do tronco de uma delas deitado sobre o mato.
Ver o Russo fumando me fez, instintivamente, tirar o maço do meu bolso e acender um também.
— Como é que foi que vocês encontraram ele? — eu quis saber, soprando a fumaça pra cima.
— Lembra que eu te falei que tinha botado um rastreador no carro do Carcará como ele mesmo tinha me pedido? — Raul comentou. Fiz que sim com a cabeça. — Então, assim que eu comecei a usar o negócio, encontrei ele rápidão. O troço não é completamente preciso, mas dá uma ideia boa de onde tá e só tinha uma estradinha perto, então, bati um rádio pro Russo e pegamo' ele no pulo.
— Como assim no pulo?
— Tava ele e outro maluco levando o corpo do Carcará pra não sei onde — explicou. — Até apertamos os dois pra saber pra onde é que eles iam, mas não dá pra confiar.
Caralho, mano... o Carcará morreu... era estranho demais pensar isso.
Eu sempre tinha dito que, apesar de termos nos aproximado bastante nos últimos tempos, nunca fomos amigos do peito, mas o Carcará sempre foi o tipo de cara que, pra mim, morreria velho, tiozão mesmo. Nesse aspecto, ele me lembrava muito o Tatu; o sujeito que sempre passa por baixo do radar, sempre fora dos conflitos.
Só que depois de tudo...
— E você sabia dessa porra toda, não sabia, Alemão? — Russo me perguntou, um pouco irritado.
— Do que?
— Que ele tava atrás desse Micha... e não falou nada.
— E por que eu iria falar? — questionei. — Por mais que vocês sempre trataram o parceiro desse jeito, o Carcará não era moleque não, porra. O maluco sempre foi homem pra poder resolver os problemas dele.
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Declínio
Misteri / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
