Capítulo Cento e Cinquenta e Um

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Lorena não esperava me ver ali.

Não esperava e não queria, pra ser mais exato.

Ficou evidente na cara dela, por mais que ela tenha sido convincente em tentar esconder, com a expressão de mulher fina que ela sempre teve, mas no brilho do olho, eu captei.

E logo a Milla também sentiu que deu uma escorregada ao me levar ali.

— Milla, Alexandre... — ela proferiu os nomes, forçando um sorriso. — Que surpresa vocês dois aqui.

Ela sabia.

Eu vi na cara dela que ela sabia o que tinha acontecido lá na festa do Kalil.

Também, não seria de se espantar. Levamos quase três horas pra voltar pra capital e uma merda barulhenta feito aquela se espalhava rápido.

Sendo assim, a grande questão era: por que fingir que não sabia de nada?

Parte de mim já começava a entender o que tava rolando ali.

— E então, Alexandre, tudo bem? — Lorena abriu um sorriso enorme, com aqueles dentes tão brancos e perfeitos... ela olhou pra mim, pra Milla e... embora tenha sido sutil pra caralho, eu percebi que ela relanceou rapidamente o meu carro atrás de mim.

Pra conferir se tem mais alguém? Pensei comigo.

— Tudo bem sim — respondi. — E com você?

— Tô ótima — e então, ela foi arqueando as sobrancelhas, enquanto juntava as mãos, quase batendo palma. — Nossa, mas eu tô curiosa, hein? Porque, pra vocês dois terem vindo juntos aqui, é porque aconteceu alguma coisa — se virando na direção do portão, ela acenou, nos chamando: — então, vamos entrar, que vocês me contam o que aconteceu lá dentro. Acho que você nunca veio na minha casa, não é, Alexandre?

— Que eu me lembre, não.

— Então, vamos entrar.

— Eu acho melhor não — falei lentamente. — Tá ficando meio tarde, tô meio cansado também e... pra falar a verdade, eu só vim fazer esse favor, trazendo a Milla aqui, que ela me pediu.

— Ah, para com isso, homem — ela riu. — Nunca veio aqui e me fazendo uma desfeita dessas? Anda, entra. A gente aproveita e toma um café, conversa um pouco.

— Não vai dar mesmo, desculpa aí — comprimi os lábios. — Eu também tenho umas coisas pra resolver e... quem sabe outro dia.

— Ah... é uma pena — mais um olhar rápido que ela trocou com a Milla.

Ficou um bagulho ruim pairando no ar, enquanto nos olhávamos.

Suspirei, tentando me desvencilhar da sensação e fui me virando, na direção do carro, falando:

— Fechou então, Milla. Vou indo lá. Boa noite aí, Lorena.

— Já vai? — Lorena perguntou e apertei os olhos sem entender.

Ela simplesmente desceu os degraus que separavam a calçada do portão, vindo na minha direção, um pouco mais rápido que o normal. O olhar dela... por um momento eu pensei que...

Mas aí, do nada, a Milla entrou no meio, falando pra ela:

— Melhor não insistir, amiga. Sabe como o Alemão é, né? Esse aí quando insiste numa coisa, não tem cristo que faça ele mudar de ideia.

— Tá tudo bem, Lorena? — questionei.

— Tá sim — ela abriu ainda mais o sorriso.

— Tava vindo pra cima de mim com tudo. Não entendi — comentei.

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