— Senhor Bellardo soa muito formal, né não? — ele disse fazendo careta. Vindo até mim, puxou a cadeira, perguntando enquanto já se sentava: — posso me sentar aqui?
— Já tá sentando — falei, seco.
— Eu peço desculpas por ter vindo só agora — ele voltou a falar. E sorria, o filho-da-puta, sorria feito uma rapariga. — Eu sei que, pelo jeito que falei em nosso último encontro, eu devo ter dado a entender que viria mais cedo. Mas é que eu estive tão ocupado nesses dias, o que imagino não ter sido tão diferente no seu caso. Com certeza que cuidar disso tudo aqui requer um tempo danado. E em minha defesa, vou relembrar que disse que viria assim que você estivesse em condições. O que me parece ser o caso agora.
Fiquei ali, apenas estudando a cara dele, para ver se me lembrava de tê-lo visto antes do que aconteceu perto de casa...
Ele tinha a cara comum de um maluco meio mauricinho. Pele clara, não como a minha; ele tinha um tom meio bronzeado de sol, mas era coisa leve. Cabelos escuros, olhos finos; também escuros e uma sombra de barba por fazer no rosto. Magro, com os braços meio grandes, acho que de academia, mas nada tão exagerado. Ninguém diria que ele era forte, apenas que estava em forma.
Tenho que guardar a cara desse maluco.
— Arthur, não é? — perguntei, balançando minha cabeça lentamente, tentando assimilar o que inferno estava acontecendo ali...
— Isso. Arthur.
— Investigador da Polícia Federal... ou outro cargo? Eu não sei direito quais são as patentes por lá — menti.
— Agente — ele me corrigiu.
— Agente... — repeti. — E o que te traz aqui?
— Eu gostaria muito de conhecê-lo melhor, Alexandre. Posso te chamar assim? — consenti. O sorriso no rosto do cuzão alargou. — Perfeito. Na verdade, eu já estava querendo conhecê-lo pessoalmente antes, mas achei melhor aguardar o momento mais oportuno. E que jeito melhor de conhecer alguém do que através de uma conversa, não concorda?
Não gostei do enfoque que ele deu em "pessoalmente".
— É só isso que você quer...? Conversar? — meu, que porra tava acontecendo ali?
— Sim. Claro.
— Eu preciso de um advogado? — joguei ao ar, apoiando meus ombros sobre a mesa.
Ele fez bico.
— Eu, talvez, possa me gabar de saber um pouco sobre você... mas não estou tão adiantado sobre sua vida para dizer algo assim. Deseja que eu o aconselhe sobre isso? Sou formado em direito também...
— Pelo o que eu entendi, você não trouxe nenhum mandato — comecei a falar, acendendo um cigarro.
— Que cigarro é esse? — ele se adiantou por cima da mesa, curioso. — Parece bom, cara. Posso experimentar?
— Não. Não pode — respondi. — Você veio aqui por causa de alguma investigação? Até agora, ninguém comentou nada sobre eu ser testemunha ou coisa do tipo. E o fisco aprovou todas as nossas contas nos últimos anos.
Ele sorriu, resignado.
— Não, não, não. Acho que eu não expliquei direito. Não estou aqui como agente da Polícia Federal.
Me recostei na cadeira. Soltei toda a fumaça de uma só vez, escondendo seu rosto por alguns segundos.
— Eu sei que prometi falar com você antes, mas o caso é que eu fiquei tão curioso ao seu respeito que perdi a noção do tempo enquanto pesquisava sobre você; só para esclarecer, foi por causa disso que fiquei tão ocupado esses dias, como eu tinha comentado antes — e riu. — Eu te conheci antes mesmo de te conhecer pessoalmente.
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Declínio
Misteri / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
