— Paulo Henrique, que merda você tá fazendo? — perguntou Wagner, a voz meio baixa, mas claramente irritado. — Você não falou que tinha de sair logo pra não se atrasar pra porra da faculdade?
Os caras que estavam em volta começaram a olhar e não demorou pra que risadinhas fossem ouvidas por todo o lado.
Paulo Henrique tratou de se afastar de mim na hora.
Eu queria gritar, mano. Queria esculhambar aquele arrombado, mas não tava com a menor vontade de piorar ainda mais aquele espetáculo.
— Responde! — Wagner gritou, se aproximando.
— Calma, pai. Eu só passei pra comprar um suco...
— Faz uma meia hora que você saiu de lá, peste.
Paulo Henrique não respondeu.
— Não quero você aqui — avisou Wagner. — Isso aqui não é lugar pra você.
Era simplesmente deplorável o jeito como Wagner evitava de olhar para os lados, para confirmar seus temores. Sim, todo mundo estava se segurando pra não estourar em gargalhadas. E, pra foder com tudo, Wagner era chefe de quase todos que estavam ali. A vergonha que emanava dele era tão grande que eu jurava que qualquer um seria capaz de senti-la também.
Não seja por isso, pensei comigo. A gente resolve esse problema fácil, fácil...
— Você me escutou, Paulo Henrique?
— Escutei, pai.
— Então, some daqui, merda.
Por um momento, pareceu que ele iria bater o pé e afrontar o pai, mas uma rápida olhada em toda a cambada que estava ali certamente o fez desistir, pois descruzou os braços e saiu calado.
Esfregando a testa, Wagner se aproximou de mim, com vergonha de me olhar na cara.
— Caramba, Alexandre, me desculpa por tudo isso — ele disse.
— É muito simples de resolver, Wagner — falei.
Ele me olhou assustado.
— Eu sei que o garoto é meio inconveniente, mas eu vou falar com ele. Pode ficar tranquilo. Só falta isso pra ele terminar a bendita faculdade... ele não precisa trabalhar aqui quando acabar o estágio. Eu dou meu jeito de tirar ele do seu...
— Fica calmo, meu bom — abrindo um sorriso fraco, ergui minhas mãos. Pra ser bem sincero, fiquei surpreso que ele não estava cogitando a hipótese de ele próprio pedir que eu mandasse seu filho embora. Também, o palhaço começou a trabalhar aqui faz tão pouco tempo... — eu só falei isso porque pensei que era o que você queria. Lá dentro, ele não tá me dando problema nenhum. É só você acertar essa parte, do comportamento, com ele, que eu deixo nas suas mãos o tempo que ele vai ficar aqui.
— Não. Pode deixar. Eu vou resolver isso.
Apenas assenti e me virei na direção da sinuca.
Até a vontade de jogar um pouco foi pra puta que pariu depois de tudo aquilo.
— Se cuida, moleque — falei, apertando de leve o ombro de Gabriel que quase saltou com meu toque.
— Tchau. Obrigado mesmo, tá?
Acenei com a cabeça, e segui pra fora.
— E acho que você tá certo — ele falou rapidamente, saindo de cima do banco e vindo até mim. — É melhor eu não esperar ela aqui... vou ficar lá fora.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
