Era uma noite fria.
Eu tinha vestido uma calça jeans azul escura, uma jaqueta puffer e calçado uma bota, acho que da Catterpillar, também preta como a jaqueta. Em condições normais, eu teria colocado um boné também, mas como tinha uma outra peça pra se usar, tive que deixar o boné em casa, o que me levou a ficar me olhando direto pelo espelho no retrovisor interno da Audi A3 do Carcará. Havia aquela conversa que, por vezes, eu só levava o bagulho como dito popular mesmo, sem nenhum embasamento, mas preocupava, né, porra... podia ser apenas nóia da minha cabeça, mas eu realmente senti que eu tava com entradas mais proeminentes... — beleza que como a parte de cima do meu cabelo tava um pouco maior do que eu costumava deixar; praticamente nada, mas o suficiente pra deixar com que meio dedo do cabelo ficasse sobre minha testa, dava a impressão de que as entradas estavam maiores do que realmente deveriam estar.
Eu podia perguntar pro Raul — que vinha com a gente, ao meu lado, no banco de trás — se ele também tinha essa impressão, mas conhecendo o filho-da-puta como eu conhecia, iria pilhar em cima de mim, falando que eu tava ficando careca.
É, Alemão... tá ficando velho, disse a mim mesmo, rindo.
Consegui evitar de ficar em choque do que o moleque pensaria a longo prazo? Claro que não, mas eu tinha os homens da minha família como retrospecto pra me apoiar. Meu pai mesmo ainda tinha bastante cabelo, já tendo passado dos sessenta e todos os meus tios homens também tinham — ainda que não servissem de muita comparação, já que o meu pai era o mais velho. — Vou ficar careca não, porra... e se eu der azar e me foder, como sempre acontece nessa vida do caralho e eu ficar com aquelas entradas monstronas, mesmo que meu pai não tenha, eu raspo tudo logo, decidi comigo, passando a mão na barba. Acho que eu não ficaria tão zoado careca e de barba. Apesar disso, a ideia me fez rir. Talvez, quando eu tivesse tempo, eu desse aquela pesquisada na internet pra entender como é que tinham tantos caras com muita barba, mas pouco cabelo — o que, abençoadamente, não era o meu caso.
E eu tinha falado antes a "a Audi A3 do Carcará?" Bem, não era exatamente assim. Tornando a me surpreender ainda mais, o maluco provou que vinha exercitando bem o tico e o teco e arrumou aquele carro apenas pra esse trampo — e havia soado como exagero? Com certeza. Porque, quando a gente descolava um carro pra esses esquemas, era papo de Uno, Gol, Palio, não a porra de uma Audi, mas eu até tive que engolir minha língua e concordar com o Carcará quando ele explicou que um carro de um nível mais alto não geraria desconfianças no Micha quando chegássemos lá.
E não era apenas o nível do carro que havia me chamado a atenção, mas a forma como ele tinha sido lacrado também — era até milagre que a luz da rua tivesse passando pelos vidros, tamanha a intensidade que tinha lacrado o bagulho.
Eu mesmo preferia assim.
Havia um ar de conforto difícil de se explicar em rodar num carro fechadão como aquele.
E seguindo com sua boa linha de raciocínio, Carcará também decidiu, antes de sairmos, que ia no toque pra quando chegasse a hora, apenas ele descesse do carro. Realmente, ficou claro que ele tava planejando aquela fita já tinha alguns dias.
O que o medo não faz com o homem, pensei comigo, fechando o quebra sol porque já tinha me cansado de ficar me encarando, ponderando a possibilidade das entradas ficarem grandes demais e o que o Gabriel acharia daquilo.
— Ele não vai estranhar com você chegando assim, ele tando aí com o maluco que tem ajudado ele a vender os caminhões? — perguntei, assim que ele virou na avenida que levava ao tal bar.
Carcará resmungou, amargo.
— Porra nenhuma — exclamou. — O verme é tão filho-da-puta que ele age como se eu fosse burro demais pra desconfiar de qualquer coisa. Ontem mesmo, ele tava aí com esse outro desgraçado e eu vim, saí do carro, fui falar com ele e ele ficou lá, rindo, me chamando pra jogar sinuca com esse outro arrombado, como se tivesse tudo certo.
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Declínio
Misteri / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
