— Então... você vai ficar fora o dia todo? — Gabriel me perguntou assim que encostei o carro de frente com o shopping. Eu não queria admitir isso a mim mesmo, mas tava na cara dele que ele não tinha engolido a minha história. Aquele olhar de quem tem muito a perguntar, mas não sabe como fazer ou não tem coragem pra isso. Aquilo me quebrava.
— É... não é bem... eu não costumo ter um horário definido pra resolver as coisas da empresa, mas esse tipo de situação... sim, costuma levar muito do meu dia — fui inventando.
— Espero que não seja dor de cabeça — ele forçou um sorriso.
— Não, não é, mas... a gente tem que ficar de olho, né? Não dizem por aí que o que engorda o gado é o olho do dono?
— Acho que sim — ele riu fracamente.
— Então... — entoei. — Pode ser que eu não consiga te buscar aqui no trampo mais tarde nem te levar na faculdade hoje, mas... mas eu não quero que você pegue busão lotado. Eu também não gosto da ideia de você pegar Uber, mas fazer o que... é melhor do que pegar busão.
— Por que você não gosta da ideia de eu pegar Uber?
— Porque eu não confio nessa raça. Não todos, é claro. Mas tem muito filho-da-puta trampando com isso — eu realmente me senti um desgraçado por querer, por um instante, que ele fosse de ônibus e não de Uber. Não, mano. Eu já tava metendo o louco pra ele sobre o que eu ia fazer, então, eu tinha que dar meus pulo pra cumprir minha promessa que eu fiz a mim mesmo de garantir o melhor que eu pudesse pra ele. — Ou eu posso pedir pra um amigo meu fazer esse corre pra mim...
— Que corre?
— É isso aí. Vou pedir pra um colega meu te buscar no trampo e depois te levar na faculdade.
— Não, Alexandre. Que vergonha.
— Vergonha do que?
— Ah, eu nem conheço seus amigos direito e o que eu vou falar pra eles quando eles me perguntarem quem eu sou e o que eu sou seu?
Estalei a língua.
— Você viaja demais, moleque — peguei o celular, já mandando uma mensagem pro Raul. Era quem eu mais confiaria pra isso. — Não vai ter nada disso não. Confia em mim. Mais tarde, um parceiro meu vai te mandar uma mensagem te avisando que vai vir te buscar aqui. E sem discutir.
— Tá bom, então — ele sorriu, mas ainda não tinha deixado de lado o ar de desconfiança. — Então, eu vou indo que se não eu vou me atrasar.
— E o meu beijo? — cobrei, assim que ele abriu a porta, botando o primeiro pé pra fora.
— Quase esqueci — voltando, ele me beijou e eu segurei sua cabeça pra fazer durar o máximo que eu pudesse. Por um momento, quis mandar o Café ir tomar no cu e recusar o "convite" dele. Mas a vida não estava nem aí para as minhas vontades. Assim que terminei, ele sorriu mais alegre.
— Se cuida, meu moleque. Qualquer coisa, me liga.
— Tá bom.
Viajando, eu fiquei ali parado, olhando ele se afastar em direção a entrada do bagulho. Cedo daquele jeito, apenas funcionários entravam. E eu mesmo só "despertei" quando sentaram a mão na buzina atrás de mim.
Ia ser uma viagem longa.
Sabendo que iria demorar mais do que eu gostaria, aproveitei pra dar um toque na minha mãe, pra que ela fosse olhar meu sobrinho lá em casa.
Por várias vezes, com a visão perdida na paisagem limpa que cercava a rodovia, eu pensei em tacar o foda-se e pegar o retorno mais próximo, mas simplesmente não fiz. Continuei a dirigir, com a cabeça estranhamente vazia a respeito de tudo aquilo. Me senti feito um robô.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
