A luz não colaborava, mas eu pude ver com clareza o queixo do Ademir tremer.
O que tava passando pela cabeça dele?
Assustada, Andressa fez seu malabarismo pra sair de cima do pau do cara, quase caindo sobre a cama.
— Tá ficando louca, caralho? — o maluco que tava por baixo dela exclamou, se sentando na cama. — Quase arranca o meu pau. Saiu assim por que?
Ela correu pro lado direito do quarto, tateando pelo chão, acho que buscando sua roupa.
— O que foi isso, Andressa? — o MC saltou da cama, indo até ela, confuso. — Você tava gostando e aí pulou quando viu os caras...
Ademir fez um barulho estranho pra caralho, uma mistura de arquejo com quem tá se engasgando com alguma coisa. Parecia que o vacilão tinha comido a coisa mais amarga do mundo.
Num giro, ele tentou sair pela mesma porta que tínhamos entrado, mas os dois caras que estavam com o Russo o impediram, rindo, enquanto o seguravam.
— Tá indo pra onde, patrão? — um deles dizia. — Mal chegamos aqui pra melhor parte e você já tá querendo ir?
— Me deixa eu passar, cara — ele pediu, agoniado, tentando forçar caminho e abaixando a cabeça pra não ter de encarar nenhum deles.
— Calma aí, bom — o outro insistiu, forçando Ademir pra dentro da sala pelo peito. — Pra quê isso tudo? Senta aí, deixa uma das novinhas te relaxar um pouco, que 'cê vai ver como vai ficar melhor.
— Por favor, cara, me deixa eu passar. Me deixa sair daqui.
— Fica suave, irmão — um outro que já estava dentro do quarto tentou intervir, rindo, os braços abertos e um copo na mão. — Bebe um gole aí, caralho. Precisa ficar bravo por causa da novinha não, truta. Aqui é tudo nosso. Quer ela, você pode ter, meu parceiro. Ela já saiu de cima do compadre ali, pode ir lá aproveitar com ela se você quiser, aqui não tem miguelagem não.
— Me deixa ir embora, pelo amor de Deus! — ele gritou, quase soluçando.
Os caras ficaram confusos.
— Deixa o cara ir, porra — falei, olhando Ademir de canto.
Sem falar mais nada, abriram caminho e ele atravessou a porta com tudo.
Tinha ido longe demais?
O Ademir nunca foi o cara que se prestou a bater no peito, dizendo ter orgulho das coisas e lutando com unhas e dentes pra que as pessoas lhe prestassem respeito, mas isso também não significava que o cara era completamente desprendido disso. Eu tinha visto no olho dele que ele não apenas ficou derrubado por ver a mina que ele gostava naquela situação, mas sim humilhado por todos ali estarem tratando ele feito um nada. Mais de uma vez, inclusive, ele tinha dado a entender pra mim que era exatamente daquela maneira que o haviam tratado a vida inteira e ele mesmo não fazia ideia de como remediar a situação.
Daí, buscar se associar a um bandido parecia o caminho pra se espelhar em alguém que dizia não ter medo de nada nem de ninguém, pensei comigo, olhando ele pisando fundo pelo corredor.
Só que a verdade não era bem assim.
Não é que não temos medo de nada nem de ninguém, mas sim que se não enfrentarmos tudo com a cara e a coragem, não resta mais nada pra nos apoiarmos e assim poder seguir em frente.
E eu acho que ele nunca vai conseguir entender o que é isso, refleti, e por isso, vai continuar reagindo assim por toda a sua vida. Dando as costas e fugindo...
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Declínio
Mystère / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
