Capítulo Cinquenta e Nove

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De mim pro Mateus e do Mateus pra mim.

O arrombado do Capeta ficou nos encarando, a testa cerrada, sem saber como reagir. Eu mesmo já tava preparado para ser surpreendido, então posicionei minha mão direita próxima a cintura, pra poder sacar a peça rápido, caso fosse necessário.

Me surpreendendo, ao surtar, ele não foi pra cima de mim primeiro, mas sim do Mateus.

Sei lá, cara, talvez fosse apenas nóia da minha cabeça, mas num último instante, eu tive a impressão de ver aquele brilho em seus olhos que diziam: "eu sempre soube".

O desgraçado acertou um soco em cheio no rosto do Mateus que girou pra trás, cambaleando, mas sem cair.

Foi tudo muito rápido.

Uma piscada e eu já estava vendo o infeliz tirando a peça de dentro da calça. Era tudo ou nada. Meio segundo e eu já tava fazendo o mesmo, tirando a ponto quarenta que tava pressionando a minha coxa. Num momento, ele erguia o braço, pronto pra encaixar o Mateus em sua mira; no outro, eu tava estendendo meu braço na horizontal, acertando aquela coronhada gostosa na fuça dele. Ele deu meio giro feito um pião e eu só podia esperar ter quebrado ao menos uns dois dentes dele.

Me pondo entre os dois, eu avancei pra cima dele e enfiei meu pé em sua barriga, assim que ele tentou recuperar o equilíbrio, jogando o desgraçado no chão. A pistola que ele trazia consigo girou em círculos pelo asfalto.

Ele bem que tentou se arrastar pra tentar reavê-la, mas eu já tinha subido em cima dele e através do peso do meu corpo, o imobilizei o melhor que pude, já descendo murro em cima de murro na cara dele. E foi um, e foi dois, e foi três... e foi até eu perder a conta, maluco.

— Para, Alexandre! — gritou Mateus ao meu lado. Nem me dei ao trabalho de olhar na direção dele.

Eu pensei que a maior parte da minha raiva tinha sido dissolvida no cacete que eu tinha dado no filho dele mais cedo, mas eu percebia estar enganado agora que me via com aquele inseto ao alcance das minhas mãos. Um verme do caralho que infernizava a vida da molecada ali na quebrada desde que eu me tinha por gente: só prestava pra dar enquadro em menor de idade e nuns coitados pra garimpar uns pinos de pó e descontar a frustração de ser um bosta nesses coitados. Aliado a tudo isso, o filho-da-puta era pai de quem era; até parecidos, os dois eram. Então, meu irmão... cada murro que eu afundava naquele satanás, a cada vez que eu me sentia mais cansado pelo esforço, era como se eu tivesse passado anos gripado, o peito carregado e aquelas porradas fossem como um vapor quente que estivesse expectorando meu peito de dentro pra fora, me limpando de tudo aquilo que fosse ruim. Então, eu não podia parar. Não podia.

— Já tá bom, Alexandre — insistiu Mateus, tentando me puxar pelo braço, mas me livrei do toque dele, sacudindo meu braço bruscamente.

Acho que já tava bom.

Tal como tinha sido com o filho dele, eu já não conseguia discernir suas feições adequadamente. A cara lavada pelo sangue. Era assim que aquele verme merecia estar.

Eram alguns limites que eu estava ultrapassando?

Não exatamente, já que não era a primeira vez que eu fazia aquilo, mas que outra escolha eu tinha, maluco?

Eu conhecia aquela raça.

Aquilo ali...? Não, irmão. Aquele cão não iria se aguentar sabendo e se lembrando de tudo o que eu fiz a ele e ao bosta do filho e não descansaria até conseguir me matar. Então, pressionando o braço direito dele com a minha coxa, eu peguei a ponto quarenta que eu nem me lembrava de tê-la colocado de volta na cintura e apoiei seu cano na testa dele. Um tiro àquela distância e já era.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora