Capítulo 89

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— Boa tarde, Horácio. — Soltei, cabisbaixo. Guiando meu corpo até o meu lugar de sempre, com a apostila debaixo dos braços. Meu quase professor me encarou estranho, com a testa franzida.

— Uau! Você está. — Encarou o relógio de pulso. — Doze minutos adiantado. Um recorde na história das empresas Abrahão, durante o nosso curso. — Assentiu satisfeito.

Mas eu não queria brincadeiras, eu estava mal. Brigar com Sophia me deixava mal.

— Você falou com o seu irmão? — Desviei o assunto da minha tristeza, não queria perguntas.

— Eu ia chegar lá. — Fiquei um pouco feliz. — Meu irmão disse que é pra você ir na casa dele, depois do curso. — Me entregou um cartão cinza fosco. — Aqui está o endereço dele!

Eu fiquei feliz, confesso. Se o irmão dele me deu o cartão quer dizer que o emprego já era quase meu.

Um passo de cada vez, Micael.

— Eu não sei como te agradecer, cara. — Apertei as mãos de Horácio, mesmo ele não querendo.

— É. — Coçou a nuca. — Você tecnicamente me encheu o saco pra isso, então... Foi o máximo que consegui te ajudar. Afinal, não é todo dia que um garoto como você não tem dinheiro pra comprar Donuts. — Fez um trocadilho com as mãos, me zoando.

Fingi que não vi.

— Vamos começar com o curso então? — Juntei minhas mãos e voltei ao meu lugar. Horácio fez a mesma rotina de sempre: abrir a maletinha de couro, folhear as páginas da apostila e começar de onde paramos.

Até as cinco horas durarem em seu relógio.


— Tchau tchau, Micael. — Horácio passou por mim com um copo de café descartável, se despedindo e entrando em seu carro.

Entrei no meu com o cartãozinho do seu irmão em mãos, colocando o endereço no GPS. Ele morava um pouco longe das redondezas da empresa, demorei quase 1 hora pra chegar até lá.

E quando cheguei... O cara morava em uma casa de filme. Eu gostaria de morar lá, tão fresco e arejado. Era o que parecia.

Ajeitei minha roupa quando sai do carro, caminhando pela pedraria do jardim e tocando a campainha. Uma casinha de brinquedo estava posta em meio ao jardim da frente, com outros brinquedos espalhados.

— Olá! — Uma moça bem bonita me atendeu. Tinha franja na testa, cabelos louros e ondulados nas pontas. Usava uma roupa de secretária sexy iguais aos dos filmes pornôs, mas não era vulgar. Era uma roupa normal, mas eu conhecia aquela roupa de outros carnavais. — Você deve ser o Micael, sim? — Me concentrei no decotinho da sua blusa de botões.

Eu precisava muito transar, deve ser por isso que eu estava estressado.

— Sim, eu mesmo. — Demos as mãos.

— Querido? Micael Borges acabou de chegar. — A moça bonita chamou alguém, que vinha caminhando até à porta, mas ela me deu passagem antes do homem engravatado me cumprimentar.

— Seja bem vindo, Micael! — Sorrimos. Que família gente boa! — Horácio falou muito bem de você. — Segui o homem até a sala da família.

— Ele é um cara bem legal. — Me sentei na poltrona de frente com os dois. Me senti em uma entrevista. Na verdade, aquilo já era uma entrevista.

E eu estava nervoso. Minhas mãos suavam e eu tentava disfarçar.

— Quantos anos você tem, Micael? — A moça bonita cruzou as pernas e eu me perdi por dois segundos.

Que cara sortudo da porra! Até eu faria um filho nela.

— Eu tenho dezessete, mas faço dezoito ainda esse ano. — Sorri.

— E você tem experiência com crianças? — O homem soltou a pergunta, atencioso.

— Eu cuidei da minha irmã que vale por três, então... — Os dois riram baixinho.

— Certo. — A moça bonita sorriu, se aliviando. — Eu estou precisando de uma pessoa pra cuidar da Clara. Minha sogra não se adaptou muito bem com ela, você sabe. — Assenti.

— Estávamos em busca de uma babá na região mas não achamos nenhuma. Meu irmão falou de você e... Parece que vai se dar bem. Você está precisando de dinheiro, não?

— É, eu estou sim. — Pausei. — Não posso deixar essa oportunidade passar em branco.

Minha atenção foi direcionada à escada, enquanto via a pequena pessoa vestida de princesa descer todos os degraus, segurando no corrimão cuidadosamente.

A pequena de cabelos loiros, branca e de olhos azuis parou em minha frente, me observando como um objeto esquisito. A menina era linda! A moça bonita tinha um útero de ouro.

— Clara, esse é Micael! Ele vai cuidar de você daqui em diante. — A moça bonita revelou à filha que ainda continuava a me encarar. — Fala oi pra ele. — Incentivou, sorrindo.

— Oi Clara. — Falei com a menininha que ainda me encarava. — Eu sou o Micael e estou muito feliz de... Cuidar de você. — Sorri um pouco nervoso.

E ao invés de ganhar um oi, ganhei um chute no joelho.

— CLARA!

— OH MEU DEUS. CLARA! — O homem interviu, segurando os braços da menina. — Não pode fazer isso, Micael é o nosso amigo.

— Cadê a minha vovó? — Perguntou, entristecida.

Que praga de menina! Clara seria o motivo pra mim usar camisinha todas as vezes que fosse transar com alguém.

— A sua vovó vai tirar uns dias de férias, até o curso da mamãe acabar. — A moça bonita conversava com a capetinha, que ainda não tinha reação para o que estava acontecendo.

— Mas eu não quero ficar com ele. Eu não gosto dele! — Bateu os pés.

Eu já posso bater nela ou é crime?

— Como você diz não gostar de uma pessoa sendo que nunca falou com ela? — O homem pegou Clara nos braços, fazendo ela me encarar de novo. — Peça desculpas ao Micael.

Ela ficou em silêncio.

— Clara, desculpas! Agora! — Fez a menina repetir.

— Desculpa. — Colocou os dedos na boca.

— Tudo bem. — Sorri falso, querendo matar a capetinha. — Vamos ser ótimos amigos, Clara.

Ela não esboçou uma reação. Ficar me olhando enquanto tinha as mãos na boca foi sua melhor opção no entanto.

— Desculpe por isso, Micael. Clara vai se adaptar rápido com você. — A moça estava envergonhada. Até eu ficaria. — Você aceita um suco? Água? — Desviou o assunto como eu fazia. Aquela era das minhas!

— Não, é... Obrigado. — Me levantei, alisando o meu bolso da calça. — Que horas é o melhor horário pra eu ficar com a Clara?

— Depois do seu curso. É que na verdade, o curso da Jane demora um pouco pra acabar, e eu preciso resolver algumas coisas no escritório. — O nome da moça bonita era Jane. Interessante... — Algum problema pra você?

— Não, imagina. — Sorri leve. — Obrigado mais uma vez por me deixarem ficar com a vaga.

— Eu é quem agradeço, Micael. — Ele me deu a mão, de novo, me cumprimentando. — Pode me chamar de Marco.

— Obrigado Marco. — Sorrimos satisfeitos, como em uma negociação. — Até amanhã então! — Acenei para os dois e entrei em meu carro.

Tentei ficar feliz com o fato de ter um emprego oficialmente, mas minha mente não deixou. Enquanto dirigia pra casa me lembrei que tinha que ir com Sophia ao ginecologista, e falhei em não levá-la.

Não podia deitar a minha cabeça no travesseiro sem me resolver com ela. Sophia ainda era a minha namorada, pelo menos eu pensava que era.

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