Capítulo Cento e Sessenta e Um

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Era mentira.

Foi a primeira coisa que me veio à cabeça assim que o maluco falou e nem precisei olhar muito pro Tatu pra saber que ele também tinha pensado o mesmo.

— Kalil não avisou porra nenhuma que ia mandar vocês aqui — Tatu reclamou.

— Tenho tempo pra discutir não, parceiro — parando na porta do estoque, ele ficou olhando de dentro pra fora, fazendo a guarda. — Aqui é jogo rápido. Quer reclamar? Fala direto com ele que deu a ordem.

Carregando vários pacotes nas mãos, os caras começaram a sair do estoque e levar o bagulho lá pra fora.

— Tá só fazendo seu trampo, né truta? — falei, assentindo lentamente.

O maluco captou depressa a ironia no meu tom e se aproximou de mim, olhando fundo nos meus olhos.

— É isso mesmo. Tô só fazendo meu trampo — ele afirmou, um olhar firme. Tinha um olho castanho meio claro e era branco, deu pra ver pelos buracos da touca. — E não vou repetir de novo. Tão achando ruim o jeito que eu tô tocando o bagulho aqui? Liga pro Kalil.

— É o que eu vou fazer...

Tatu começou a falar, mas sem tirar os olhos daquele arrombado, eu estendi meu braço à frente do Tatu e ele parou de falar.

— Se é só o seu trampo que você tá fazendo aqui, jão, o mínimo que você devia ter era respeito, certo?

— E eu faltei com respeito com quem aqui?

— O parceiro aqui é gerente dessa porra há anos, caralho! — exclamei, indicando o Tatu ao meu lado com a cabeça. — Podia ter sido o capeta que deu a ordem pra vocês virem aqui fazer essa palhaçada, não é assim que se faz não, porra! Invadindo e metendo a mão no bagulho como se fosse a casa de vocês.

— Meu amigo, eu já te falei...

— Meu amigo é minha pica, seu vacilão! — não o deixei falar. — O cara não acabou de falar pra você que não tava sabendo de porra nenhuma? O que você devia fazer era chamar lá na entrada, explicar a situação e se o cara desconfiasse, porque é ele que responde por essa merda aqui, tu devia era esperar ele confirmar tua história, entendeu?

Ele deu risada.

— É o seguinte, grandão: fica na tua raiva aí que eu tô pouco me fodendo pra...

— E tira a porra dessa touca, caralho! — e tentei puxar o bagulho da cabeça dele, só que o desgraçado foi mais ligeiro e conseguiu se afastar a tempo, dando um pulo pra trás com tudo.

— Tá ficando louco, filho-da-puta?! — ele xingou.

— Tira essa porra, caralho — mandei de novo. — Você quer invadir a loja aqui, metendo banca pra cima de todo mundo, escondendo a cara? O caralho. Quer peitar o cara aqui? Tem que ser homem primeiro e fazer isso mostrando a cara. Anda.

— Vai se foder.

Bem na hora, convenientemente, todos os caras que tinham vindo com ele estavam dentro do estoque, enchendo as mãos com os pacotes. A porta abria pra fora, o que me permitiu fechar eles lá dentro com uma bicuda.

— Você só vai sair dessa porra aqui depois que a gente ver tua cara.

Ele tentou abrir a porta, mas a fechei com outra bicuda de novo.

— Tô falando grego, seu arrombado? — avancei com tudo na direção dele e ficamos a milímetros de se encostar.

E aí um dos caras abriu a porta por dentro, segurando uns quatro pacotes fechados de pó.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora