Capítulo Cento e Sessenta e Três

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— É a sua irmã se pendurando no muro ali? — Raul perguntou, se abaixando de frente com a janela do carro pra tentar ver melhor.

Até eu tive dificuldades de enxergar, já que as luzes dos postes eram daquelas brancas, o que deixava a iluminação a desejar.

— Peraí... — Raul se inclinou ainda mais no exato momento que minha irmã finalmente conseguiu e descer e mais uma sombra se projetou por sobre o muro. — O que...? Sua irmã tá fugindo dessa casa com um anão?

— Que anão, caralho. É o meu sobrinho — respondi, mesmo sem poder afirmar, porque o moleque parecia estar usando uma blusa preta, o que o deixou ainda mais distorcido na sombra que a parede da casa ao lado projetava sobre o muro.

Helena ajudou meu sobrinho a descer e depois veio correndo com ele na nossa direção, falando num tom suspirado:

— Vai, Jamile, já vai abrindo a porta do carro.

No instinto mesmo, assim que eu vi a Jamile correndo pra porta atrás do Raul, eu a destravei e ela já pulou pra dentro; a Helena e o meu sobrinho fazendo o mesmo na sequência. Mal ela tinha batido a porta do carro, com os três dentro, ela foi gritando pra mim:

— Vamos embora, Alexandre! Vai, vai, vai!

Não consegui fazer outra coisa que não obedecer e sair fora.

Enquanto eu avançava pela rua, os dois começaram a rir alto.

— Você viu, mãe, como eu consegui subir no muro? — Gabriel falava, ainda rindo.

— Vi, meu amor. Tá ficando enorme também... igual seu tio.

A olhei pelo retrovisor e ela parecia não ter cabeça pra qualquer outra coisa que não o filho.

— O que foi isso aqui, Helena? — perguntei.

— Depois eu te conto — ela respondeu, ainda sem me olhar, encostando a cabeça no banco, enquanto o Gabriel deitava a cabeça no colo dela.

Continuei encarando ela pelo retrovisor e numa situação normal, eu teria soltado os cachorros em cima dela, mas o moleque ali, tão sorridente e leve como ele tava, não me permitiu, então, segui dirigindo calado.

— Nossa, só percebi você aí agora, Raul — ela comentou, o sorriso incapaz de ir embora. — Como é que você tá?

— Tô bem, graças a Deus — Raul respondeu, forçando um sorriso. — E você?

— Melhor impossível — ela falou, inclinando a cabeça pro lado, como se tivesse focada em observar a cidade lá fora.

Raul me olhou muito brevemente com uma feição que sugeria vergonha e seguiu calado pelo resto da viagem, até que comentou que tinha uma coisa pra resolver em casa e eu o deixei na rua onde ele tinha estacionado o carro, antes de ir comigo ficar de butuca na casa da tia do Gabriel.

Depois, foi a vez da Jamile e a deixamos em casa; quando eu pensei que a Helena também decidiria ficar por ali, já que eram vizinhas, mas ela simplesmente falou que tinha que ir pra casa de uma tal "amiga" e foi me passando caminho... quando parei naquela avenida, que eu tinha entrado umas semanas atrás, quando fugimos do litoral após o ataque na festa do Kalil, eu não quis acreditar...

— Helena... que amiga é essa? — questionei, entrando na rua da casa...

— A Lorena.

Mano...

Eu podia ter dado meia volta e simplesmente ido embora. A Helena faria o que? Pularia do carro junto com o filho?

Cara, eu tinha feito o impossível pra separar os meus "mundos"; a Vargo da família; a família do Comando... mas agora tava eu ali, levando minha irmã que tava buscando ajuda na casa da irmã do Café que, até onde eu sabia, tava junto com a Milla numa tentativa mirabolante de dar o troco no Café pelo o que ele fez com ela na treta com o Beirinha.

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⏰ Última atualização: 2 days ago ⏰

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