Capítulo Cento e Sessenta e Dois

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— Tá tirando, porra — um dos malucos que tinha corrido atrás dela até a sala falou, a puxando pelo braço. — Vai invadindo o bagulho assim...

— Me solta! — Milla gritou, sacudindo o braço pra se livrar do toque do cara. — Agora que eu consegui entrar aqui e achar ele, é que eu não vou sair mesmo.

— Ai, caralho... mas é pra fazer rir mesmo — o cara abriu um sorriso, a olhando como se fosse uma criança, enquanto a pegava pelo braço de novo.

— Eu já...

— Pode deixar — Kalil falou, tranquilo e o cara a largou. Por uns instantes, ele ficou olhando pro Kalil como quem pergunta: "tem certeza?", Kalil confirmou com a cabeça e ele saiu da sala.

Desde que tinha entrado ali, Milla só tinha olhos pro Kalil, mas bastou ficarmos apenas nós três que ela pareceu finalmente me reparar.

— Você disse que não podia me encontrar porque tava muito ocupado — ela falou pro Kalil. — Mas, pro Alemão, você conseguiu arrumar tempo.

— Oxi, caralho... tá doidona é? — Kalil entoou. — Tá achando que 'cê é minha mulher agora?

— Você precisa me ajudar, Kalil — ela se adiantou com tudo pra mais perto dele, a respiração mais carregada. — Eu dei o meu jeito, larguei meu carro no mercado ali perto, peguei metrô... tô fazendo o possível pra não ser encontrada, mas é questão de tempo. Ele vai me achar.

— Larga a mão de ser desesperada — Kalil fez pouco caso.

— Ele sabe — ela insistiu. — Ele sabe que eu... — e ela olhou pra mim, como se não quisesse que eu escutasse. Se ela tava achando que aquilo me faria sair da sala, mas nem fodendo que eu perderia aquela oportunidade.

— Você tem tanta certeza assim por que? — Kalil debochou. — Ele mesmo ou alguém te falou isso?

— Kalil, você não tá entendendo... — ela esfregou a cara. — Ou tá querendo fingir que não entende o que tá acontecendo aqui. O Liedson contou só pro Marlinhos e pra mim essa ideia dele de ir atacar as lojas... e aí, de repente, ele faz justo o contrário? Ele tem gente vigiando as lojas dos irmãos que apoiam ele... e você sabe disso. E agora, ele...

— Eu entendi, Milla — Kalil a cortou, impaciente. — O que eu não tô entendendo é essa sua loucura. Pelo que eu tô vendo, nem ele nem ninguém falou alguma coisa que pudesse ser interpretada como ele já certo de que foi você que entregou ele. Você ficou sabendo do ataque à loja do Tatu, começou a querer ver mais do que tinha pra ser visto e tá aí feito uma maluca. Não é a primeira vez que isso acontece.

— É... e é graças a isso que eu ainda tô aqui, bem e viva, que é o que importa. Se eu não fosse essa maluca que você tá falando, que sempre cogita todas as possibilidades, eu tinha rodado há muito tempo.

— Tá, Milla... — Kalil ecoou, cansado. — E quantas dessas tantas vezes em que você surtou, achando que ia acontecer o pior, que ia pro ralo, realmente aconteceu o pior? Quantas vezes?

Ela olhou pra ele como se o Kalil acabasse de ter soltado a maior ofensa já dita naquele mundo.

— E quantas vezes eu te contei uma coisa que eu ouvi meu marido dizer pros parceiros dele ou que tava planejando fazer e você me disse que era exagero meu, que eu não tinha com o que me preocupar e deixou pra lá, ignorou? — ela retrucou. — Quantas vezes?

Kalil suspirou, coçando a cabeça.

— Você ouviu o que você acabou de dizer, Milla? É exatamente essa a questão aqui. Tudo aquilo que você me contou sobre o seu marido e eu acreditei e já fui fazendo meu corre pra lidar com a situação, foram coisas que você viu e ouviu, e esse não é o caso agora.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora