— A limpa? — repeti, ainda desacreditado. Russo confirmou com a cabeça. — Os caras raparam tudo mesmo?
— Bom, com certeza a maior parte, porque você tá ligado que, mesmo num cenário onde o Café não desconfiasse nem um pouco que pudesse acontecer isso da gente ir pra cima do CD dele, sempre tem um pessoal na contenção; é de lei. Então, conseguir rapar cem por cento do bagulho seria muito improvável, por mais favorável que fosse a situação pro nosso lado. Ainda mais agora que ele já tava se preparando pra gente ir pra cima.
— Era isso que eu ia te perguntar — observei. — O Café tinha comentado que tava esperando que o Kalil fosse pra cima do CD e até me pediu um caminhão pra fazer o transbordo de parte da carga dele pra Santos e o meu motorista que desenrolou essa fita aí me confirmou que deu tudo certo.
— E deu mesmo — Russo sorriu. — A maior parte do que resta pro Café agora é o que tá em Santos... território do da Caboré. E o Café sabe melhor do que ninguém que não tem a menor possibilidade de ele ficar movimentando produto em Santos, onde cada esquina tem alguém do da Caboré de olho. Ele só mandou pra lá, por garantia, tá ligado, pra ter um caução caso algo do tipo acontecesse, mas é o tipo de coisa que se faz rezando de joelhos em cima do milho esperando que nunca seja necessário... agora, o que sobrou pra ele? Trazer tudo de volta pra São Paulo?
— Ele não vai fazer isso — falei aquilo mais pra mim mesmo do que pro Russo.
— Não. Não vai — tornando a cruzar os braços, Russo voltou sua atenção pro pessoal lá embaixo gravando. — Embora que, eventualmente, ele não vai ter opção. Sem produto pra abastecer as lojas e manter o "armamento" da rapaziada dele, ele vai quebrar.
— E é nesse momento que vocês pretendem dar o golpe final nele? Quando ele tiver que trazer o que foi pra Santos de volta?
— É isso aí.
— Mas, e o que foi roubado da loja do Tatu? — questionei. — E pelo que eu entendi, não foi apenas a loja do Tatu que foi assaltada e tudo isso foi depois de ele ter usado meu caminhão pra levar parte da carga dele pra Santos. Ou seja, o Café tem algum estoque de produto em algum outro lugar... e algo me diz que não é tão longe daqui.
— Eu já fiz minha estimativa de tudo aquilo que foi levado no ataque que ele organizou e não é, nem de longe, o suficiente pra ele ter alguma sobrevida por aqui. Vai acabar rápido.
— Sei não, mano...
— Como assim, Alemão? Tem alguma coisa aí que você tá sabendo que eu não sei?
— Não, nada disso. Mas você conhece a peça... o Café é muito... porra, o cara é muito passional, irmão — confesso que me bateu uma sensação ruim naquela porra.
— E temos que agradecer a Deus por isso — Russo falou. — Porque se o vacilão fosse um cara mais cabeça fria e objetivo, a gente tava era fodido.
— Não, eu entendo, mas... sei lá, porra, o Café é daquele tipo de louco que... quando pressionado desse jeito, o cara acaba tendo a reação mais imprevisível possível.
— A imprevisibilidade dele já era previsível pra mim, Alemão.
— Eu tô ligado... — fiquei ali, olhando o doidão do MC fazendo umas poses pra frente da câmera, enquanto a música começava a aumentar. Sei lá porque, mas vendo o arrombado pagando de bonzão ali, com aquelas poses vergonhosas, eu consegui imaginar perfeitamente ele trepando com a Andressa num motelzinho enquanto o clipe dele já finalizado passava na tv; o celular dela tocando em algum canto; várias chamadas perdidas do Ademir. Que decadência, truta... — esses dias aí, eu tava vendo um vídeo que... meu irmão tá sempre me encaminhando esses vídeos que os caras fazem tipo um compilado de vídeos engraçados, tá ligado?
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Declínio
Mistério / Suspense"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
