ARTHUR
O médico informa que a Cá perdeu uma quantidade significativa de sangue, o que ocasionou complicações na cirurgia. A hemorragia vinha do baço e eles removeram o órgão.
Apesar de tudo, eles conseguiram concluir a cirurgia com sucesso, ela está em um quarto e eles vão saber mais quando ela acordar. As expectativas são boas, mas ainda temos a possibilidade de complicações.
Essas possibilidades me apavoram. Ela tem que ficar bem. Em toda a fala do médico, a mãe da Carla segura minha mão e a aperta ocasionalmente.
Quando ele termina de nos explicar tudo, diz que podemos ir vê-la. Duas pessoas por vez. Eu e dona Mara somos os primeiros.
Chegamos no quarto e é impossível conter as lágrimas. Vê-la cheia de curativos, tão vulnerável em uma cama de hospital me deixa sem ar. Não consigo me aproximar de imediato. Dona Mara o faz enquanto eu fico no canto do quarto tentando assimilar tudo que aconteceu e que está acontecendo.
A vejo enxugando as lágrimas logo depois de beijar a testa da filha, em seguida me olha.
Mara: Arthur?
Arthur: oi?
Mara: ela vai ficar bem - ela sorri - vocês dois vão - ela volta o olhar pra filha e acaricia o rosto dela - sabe, Arthur - ela volta a me olhar - por muito tempo eu fui totalmente contra o relacionamento de vocês. Eu não consegui te perdoar por todas as vezes que vi minha filha chorando - ela suspira - naquele programa. Eu guardei muita mágoa de você, e quando ela disse que ia tentar novamente aqui fora, eu disse que não concordava, mas a vida era dela. - ela fala tudo olhando pra Carla e eu estou estático, só ouvindo - vocês tentaram, e mais uma vez eu vi ela chorando por você, minha raiva só crescia, eu não queria ver minha filha sofrendo. E por isso, em toda oportunidade que eu tive que apontar que vocês não dariam certo, eu apontei. Eu sabia que ela te amava, que ela continuaria fazendo de tudo por vocês. Mas, eu não queria que ela se desgastasse mais, numa relação que pra mim era falida - ela me olha.
Arthur: dona Mara, eu...
Mara: me deixa terminar - ela me interrompe - o tempo passou, eu vi a Carla demonstrar que estava bem, mas eu conheço a minha filha, eu sabia que ela não estava nada bem, e eu também sabia o motivo. Tem um tempo que eu parei pra pensar, se de fato você fez tanto mal, porque ela ainda te amava tanto? E porque ainda tinha tanta gente que apoiava vocês juntos? Eu me perguntava o que eu não estava vendo. E foi ai que eu percebi. Eu me fechei tanto na raiva que eu sentia de você, que eu estagnei, não reparei nas mudanças, no amadurecimento pessoal e enquanto casal, eu não vi o potencial de vocês e eu ignorei totalmente o amor que você também tem pela minha filha - ela seca as lágrimas - eu ja tenho pensado nisso a um tempo e hoje, depois que eu falei com a Pocah e ela me contou o desespero em que a Carla tava pra saber de você depois do acidente da sua irmã, depois que soube que ela saiu do escritório desnorteada depois que viu a notícia e veio até aqui ignorando todas as consequências, eu tive a certeza que ela ainda te ama muito e ao ver o seu estado com tudo isso, eu sei que você também a ama. E eu só espero que você possa me perdoar, por tudo - ela chora - eu espero que você volte pra vida da minha filha e a faça feliz. Vocês merecem e eu não poderia estar mais arrependida de ter interferido na história de vocês.
Meu rosto está banhado de lágrimas, atravesso o quarto e abraço ela.
Arthur: eu amo sua filha, como eu nunca amei na minha vida. - desfaço o abraço para olha-la nos olhos - E eu sei dos meus erros, reconheço todos e por isso não te julgo por nada. Você é mãe, queria proteger sua filha. Mas, eu garanto a você, eu só quero fazer ela feliz. Eu tava muito magoado com tudo, eu estava fazendo de tudo pra tirar ela do meu coração e seguir minha vida, mas eu nunca consegui, e com tudo isso, eu não vou mais perder tempo, eu vou lutar pra recuperar o tempo que a gente perdeu.
Mara: vocês tem minha benção e meu apoio, meu genro querido. - ela sorri pra mim e me abraça mais uma vez.
