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[WILLIAM]


"Ando possuído, olha dentro dos meus olhos pra entender.
Na santa missão, sou o proibidão, a pimenta desse arroz com feijão, eu sou o capeta"
Filipe Ret


- Barbás? - Russo bateu na porta e entrou, deixando o fuzil do lado de fora da porta. - Tô deixando os cadernos da semana aqui pra tu, beleza? - Avisou e eu ouvi o baque na minha mesa. - Das bocas, TV, internet, gás... O resto todo. Quer que eu ligue pra Xica?

- Deixa que eu me viro com isso ai. - Falei, sem me virar pra olhar ele. Tava ali curtindo o meu momento de tranquilidade, fumando meu cigarro na sacada do escritório no final do dia e ficando um tempo sozinho. Ultimamente tava foda de ter um segundo sequer com os meus próprios pensamentos. Era muita gente me procurando... minha tropa, os gerentes, morador pra fazer pedido, pra fazer reclamação, o telefone e o rádio que não parava 30 minutos sem tocar. Era foda, às vezes cansava, o pique batia lá em baixo e a vontade de mandar todo mundo tomar no cu era gigante. Lidar com gente era pica, principalmente porque a vida fez questão de me ensinar a não confiar em ninguém. Era 2 ou 3 em quem eu botava minha fé, mas nem por eles eu colocaria minha mão no fogo. Depois de tanta rasteira, a gente aprendia a ficar esperto.

Ele saiu e eu fiquei ali vendo a favela do alto por mais um tempo. Fazia um pouco mais de um ano que eu tinha tomado a Rocinha de uma vez e botado fim na porra da disputa interna que degringolava a anos. Geral tinha enfiado a moral no cu pra tentar colocar a mão nessa porra de escritório e ter essa visão que eu tinha agora, esse chão aqui era muito muito manchado de sangue. A Rocinha tinha que ter um líder com pulso firme e voz de autoridade pra colocar todo mundo nos seus lugares. Leão fraco chama hiena oportunista... Eu entendi isso primeiro que qualquer um deles, por isso, eu dei certo. No início tinha sido pica apaziguar os ânimos, mas com o tempo as coisas começaram a fluir. Depois que tu inspirava a confiança dos outros, mostrava que tu conseguia manter tudo num tom só, os 'amigos' te seguiam com uma venda nos olhos. Isso, claro, até a página 2.

Terminei o meu cigarro e entrei, olhando a pilha de caderno. Era trabalho pra caralho passar o pente fino naquilo tudo, mas era um bagulho que eu podia fazer sozinho e quieto no meu canto, tava valendo então. Além disso, porra, eu gostava demais do meu dinheiro, então, eu preferia eu mesmo meter a mão nas contas das minhas favelas. Eu tinha ralado pra caralho pra conquistar tudo o que eu tinha conquistado, era minha obrigação manter aquilo ali. Peguei o primeiro, o da boca da Barcelos e fui conferir o que eles tinham recebido, o quanto eles tinham vendido... Acendi mais um cigarro e continuei ali batendo tudo. O lado bom de sempre ter coisa pra fazer é que eu tinha muito pouco tempo pra ficar pensando nos fantasmas que eu carregava nas costas. Mesmo assim, às vezes eles voltavam pra lembrar que tavam ali.

- Licença, chefe. - Um moleque novo bateu na minha porta e entrou com o TK atrás. Andrei. Eu tinha visto ele crescer e ir embora com a família dele, me surpreendi quando uns anos depois ele quis voltar e se juntar aos meus homens. Sabia que ele tinha admiração por mim desde moleque e isso servia bem aos meus objetivos. Ele já era importante só pelo fato de ser irmão da mulher que eu procurava desde que eu tinha saído da cadeia.

Marina era o nome dela. Tinha sido minha mulher, de fé, aquela por quem eu matava e morria. Porra, a mina que eu tinha amado pra caralho... Também a filha da puta que tinha me pegado na maior judaria da minha vida e virado o maior dos meus muitos demônios, aquele que mais atormentava os meus pensamentos. Mesmo que tivesse sido há muitos anos e que eu já tivesse me reerguido, a traição dela ainda tava muito viva dentro de mim. Eu nunca consegui esquecer, muito menos perdoar o que aconteceu entre nós dois. Muita gente já tinha metido uma faca na minhas costas, mas a dela foi a que mais doeu. Eu não esperava... ninguém esperava, até porque nós éramos felizes pra caralho e tínhamos um futuro bonito, um que nós tínhamos lutado pra caralho pra ter a oportunidade de viver. Não vi a mulher traiçoeira que rastejava pelos meus lençóis que nem uma cobra, que tinha me feito provar do fruto proibido só pra me jogar pra fora do paraíso um tempo depois. Os três anos que eu passei na cadeia por causa dela me deram muito tempo pra pensar e remoer tudo aquilo... Agora, há 24 meses que eu tava fora daquele inferno, tudo o que eu queria era olhar pra ela de novo e ter certeza que ela tava pagando por toda a safadeza que tinha feito comigo e com os nossos amigos. Era pessoal, pessoal pra caralho. E ela ia pagar...

- Boa tarde ai, patrão. - O moleque entrou e apertou minha mão, sentando na minha frente. Joguei minhas costas contra o encosto, olhando pra ele. A real é que ele não era mais uma moleque, mas eu sempre ia ver ele assim.

- Boa tarde, irmão. - Respondi sem muita emoção, batendo os dedos na mesa. - O que que tu tem de novo pra mim?

- Minha mãe ligou pra ela anteontem, fiquei sabendo hoje. - Contou. - É por causa do pai dela. É aquele papo que eu já tinha te passado antes, o Carlos tá doente mesmo.

Sorri de canto no automático. Recebi aquela confirmação com muito gosto, eu não tinha que fazer absolutamente pra foder ele, a vida se encarregou disso. Karma é foda, irmão, não tem como escapar das merdas que se faz nessa vida. A hora da cobrança chega sempre. Isso explicava o porquê dele ter recuado pro outro lado da Zona Sul e cedido todo o território daqui pra mim quase sem resistência. O velho não tinha mais força pra manter essa porra... isso começava a me fazer pensar em como eu podia terminar de tirar daqui da ZS. Como ia coordenar uma salvaguarda, se tava fodido?

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora