— Agora, Drei. — Fui incisiva, se não, sabia que ele não faria. — Tá tudo bem, vai lá nele e passa o telefone.
Ele não falou nada, mas também não desligou. Fui na cozinha pegar uma água, quando eu ouvia barulho de vento, dele falando com outras pessoas. Ouvi ele falar o nome do 'TK', pedir pra falar com o Barbás.
— Tem certeza? — Perguntou no telefone, talvez antes de entrar na presença do outro.
— Sim, eu não tenho medo, Andrei. Só faz de uma vez. — Respondi e o som de uma porta sendo aberto chegou aos meus ouvidos. "Boa tarde, patrão."
Aí... aí eu ouvi a voz do William de novo, depois de todos aqueles anos. Meu deu taquicardia e eu voltei a me enrolar numa bolinha de novo. Senti a face do rosto arder e os olhos lacrimejarem, fiquei uns segundo sem falar, me sentindo incapaz de pronunciar uma palavra sequer. Suspirei muito profundamente, pedindo forças à Deus.
— Alô? — Ele respondeu à chamada e o Andrei disse alguma coisa como "tá no viva voz". Não consegui dizer nada e ele voltou a repetir. — Alô?
— Oi... William. — Disse depois de uns segundos, perdendo completamente a firmeza e a vivacidade da voz. Saiu algo como um sussurro rouco, vindo do fundo do meu peito. Eu queria muito chorar, muito... Não previ que eu ia ficar tão emotiva por só falar com ele de novo. Meu Deus.
Ele não respondeu, mas eu ouvi o baque de alguma coisa. Pulei no lugar, controlando qualquer expressão de choro que eu tivesse. Eu não queria que ninguém ouvisse os meus sentimentos transbordando assim, muito menos ele.
— William? — Insisti, diante do silêncio dele. Tava sendo muito difícil pra mim, que inferno...
— É Barbás pra você. — Cortou seco e eu fechei os olhos, sentindo o tamanho do problema. — Achei que fosse ficar entocada num buraco pra sempre. Bem do teu nível.
— Eu não tava entocada em lugar nenhum. — Me justifiquei, não sabendo o que dizer. — Tava no Paraguai... porque precisava, não porque gostava.
— Foi pra lá onde tu fugiu então. — Nem a voz dele tava firme. Barbás gostava de parecer um bloco de mármore, mas as suas emoções estavam o traindo também. Eu conseguia entender muito bem a raiva no seu tom, tinha quase certeza que ele tava falando entre dentes só pela forma como tava soando a sua voz. — Deixa eu adivinhar, depois que você me fodeu pra ajudar o teu papaizinho, ele te deu uma casinha no fim do mundo, onde tu podia se esconder e brincar de Barbie. Que lindo.
— Se escuta e se pergunta se eu tinha motivo pra fazer o que você tá me acusando antes de qualquer coisa. — Só consegui dizer isso, nem abertamente eu conseguia falar.
— Não, tu não tinha motivo, mas fez mesmo assim, não fez? Sua filha da puta. — Eu quase consegui apalpar o seu rancor. Aquilo um dia já tinha sido tristeza, talvez fosse até hoje. Ele tinha sofrido... senti meu coração se quebrar de novo em um milhão de pedaços. — Quem não deve, não foge.
— Não é nada disso, Barbás. Eu não podia ficar, cacete... iam me matar por um bagulho que eu não fiz. Eu nunca te traí, quem fez isso foi o Parma. — Sussurrei, sabendo que era só uma agulha num palheiro. — A gente pode conversar? Eu tenho que te explicar tudo e...
— Pode não, a gente vai. Eu quero ouvir a história que tu vai me contar, faço questão nessa porra. Pra mim e pra todo mundo aqui dentro dessa favela, por quem você trocou por uma brincadeira de casinha no Paraguai. — Me cortou, dessa vez de um jeito energético. — Tô esperando por isso. Tua conta comigo tá no vermelho.
Foi a minha vez de ficar em silêncio por um tempo. Ele ficou também, mas eu ouvi uns estrondos. Achei que ele tava socando alguma coisa, talvez a mesa...
— O que tu quer de mim? Eu tô disposta a conversar numa boa. — Falei, passando a mão no rosto.
— O que eu quero? — Ele riu e deixou uma questão nebulosa no ar. O que ele queria? — Eu quero que tu venha até aqui, onde tudo começou, falar o que tu tem pra falar na minha cara. Aliás, eu não tô pedindo. Se tu não vir num boa, eu vou te fazer vir por mal. — Era uma ameaça explicita. Eu sabia que ele tinha como me chantagear pra ir até lá... Barbás tinha muita coisa pra usar contra mim e tinha certeza que ele tinha consciência disso. Me senti como um bebê com o pescoço enrolado no próprio cordão umbilical.
— Ir ai? Na Rocinha? — Perguntei, sentindo um arrepio esquisito. — Eu tava pensando em um lugar neutro.
— Aqui. Na favela que tu abandonou, pras pessoas que tu traiu. Só pra começar, é o mínimo que tu deve nessa porra. — Ele foi incisivo.
— Tu não quer conversar... tu me quer na tua mão. — Acusei. — Se eu for até ai, tu vai poder fazer o que tu quiser comigo. Se você não quiser me dar o direito de falar, eu simplesmente não vou poder me defender. Não é justo nessa porra, nem seguro pra mim.
— Exatamente. — Confirmou sem vergonha nenhuma e um tremor balançou as mãos que seguravam o celular.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
