Não falei nada pra ela... tava me cara ainda com as coisas que eu tava escutando. Com o que eu tava vendo acontecer mais ainda. Eu era preparado pra tudo, mas eu perdi a mão ali legal. Como eu ia imaginar que essa filha da puta tinha ido pra porra de uma fronteira mexer com coisa de droga, irmão? Aliás, ainda tava me perguntando como ela tinha conseguido foder o Homero daquele jeito. Como? O cara já era casca nesse ramo há muitos anos, alguma façanha ela tinha feito. Agora eu queria saber quem ela era, queria saber como ela tinha feito aquilo, pra entender com quem eu tava lidando... até porque, irmão, eu não sabia mais. Se tinha um bagulho que eu nunca ia admitir, mas que era verdade, é que eu tava puta impressionado. Pouca gente conseguia me pegar daquele jeito, pra variar, ela ela... Eu tinha que dar crédito. Mesmo assim, ser obrigado a negociar a situação me deixava extremamente irritado.
Por mais que eu tivesse puto, cansado e com sono, eu ia ter que ceder pra ela ali. Eu precisava da minha mercadoria, não tinha jeito. Se pá eu tinha mais 4 ou 5 dias de estoque, isso se o baile que ia rolar daqui há 2 dias não fosse dos grandes. Se fosse, era menos que isso ainda, se pá eu não tinha nem pra esperar o próximo carregamento. Isso pra não falar da falação que ia ficar por ai... Se eu tivesse que aguentar show de gerente pra cima de mim, eu não sabia nem o que eu era capaz de fazer com eles. Mermão... agora era me virar nos 30. Não tinha tempo pra me emocionar ali, foda-se que eu tava cansado, eu tinha que resolver aquilo e botar o trem no trilho de novo.
Ia dar um jeito de segurar o estoque, mas eu precisava daqueles caminhões na pista pra ontem. Peguei meu celular no bolso, desbloqueei e dei na mão dela.
— Dá um jeito. — Ela pegou, me olhando e depois pro aparelho. — Agora.
— Vamo conversar primeiro, vai... — Tentou e eu neguei com a cabeça com toda a tranquilidade do mundo, como se tivesse falando com uma criança.
— Primeiro tu vai desfazer a merda que tu fez. Depois a gente conversa. — Fui firme com ela, me recusando a me estressar com ela de novo.
— Porra, não faz nem sentido. Se eu te entregar o que eu tenho, quem me garante que tu vai fazer o mínimo por mim depois? — Perguntou.
— Minha palavra. — Falei, cruzando os braços. Ela me olhou por um tempo e deixou suspirou, discando um número de cabeça lá e colocando o telefone no ouvido. Podia parecer pouco, mas a real é que a única coisa que um bandido tinha era sua palavra. Ela tinha que ser confiável, ou o cara não ia ter moral nenhuma na praça.
— Rogier? É a Nina. — Falou, começando a andar pelo porão. — Seguinte, vamo prorrogar esse prazo ai na Nova Esperança. Libera o que tu tem pra vir pra cá, mas marca o nosso amigo lá, tá? Eu quero tudo o que ele me deve cobrado. Mais 3 dias e eu te ligo, se não, mesmo esquema.
Franzi a testa, acreditando bem mal na firmeza da voz dela. Até a postura dela tinha mudado, enquanto ela falava com o cara no telefone. Essa eu não conhecia ainda... Fiquei curioso com o comportamento dela, como tinha ido de uma mulher encolhida no canto de uma sala suja à alguém que ia distribuindo ordens no celular com a maior normalidade do mundo. Fiquei observando ela, captando cada detalhe pra me precaver no futuro, eu tinha que descobrir quem era essa mulher.
— Valeu, tá tudo bem aqui comigo, não preocupa não. Não posso falar muito, mas se Deus quiser, eu ligo daqui uns dias. — Se despediu e desligou, devolveu o celular. — Tua carga sai hoje, se preocupa não. Meu pessoal mesmo que vai trazer, então é garantia, depois tu vê com o Homero a questão do dinheiro.
— Que porra é aquela de liga em 3 dias? Tá na tua casa? — Perguntei, com os olhos semicerrados pra ela. Eu tava começando a achar que a mina simplesmente não tava entendendo o que tava acontecendo... Tantos anos depois e ela ainda não fazia questão de se situar da realidade.
— É só pra ter certeza que eu vou continuar viva até o fim do nosso trato. — Concordou com a cabeça. — Vai que você se estressa comigo...
— Eu não preciso te matar... — Deixei uma ameaça velada no ar. Tinha muita coisa que eu podia fazer contra ela, muita mesmo. Ela não parecia ter consciência disso. Antigamente eu achava que era pura inocência dela, mas agora eu sabia que não.
— Já te adianto que me torturar não vai adiantar também. Meu parto foi normal, eu sei o que é dor...
— Tu tá levando na brincadeira, né?! Tá divertidão pra você. Como sempre, tu acha é só ir e dar a cara pra bater que vai ficar tudo certo. — Falei, pegando o celular da mão dela e parando na sua frente. Ela me encarou de volta. — Tu só esquece que tá contando com a sorte e ela pode não estar a teu favor dessa vez. Quem ri por último ri melhor, Marina.
— Eu não tô rindo e nem tô brincando. — Ficou séria de novo, recuando um passo pra trás. Captei aquela expressão corporal dela. — Ninguém gosta de ficar num lugar horrível desses passando fome, sem ter onde dormir direito e respirando tanta poeira que meu nariz parece que vai cair qualquer hora dessas de tão irritado que tá.
— Queria uma suíte 5 estrelas, madame? — Ri com deboche. — Tá achando que é convidada aqui, porra? Acorda, caralho. Se bota no teu lugar.
— É demais pedir um pouco de dignidade? — Reclamou. — Porra, se tu já vai me matar de qualquer jeito, pelo menos não me bota pra viver que nem bicho até lá. Já falei que vou colaborar, cacete, só me dá a chance de ser ouvida, depois tu me julga do jeito que você achar melhor e me mata. Prometo que não vou ficar no teu caminho se a gente fizer assim, eu nem posso, como eu te disse... só dá pra enrolar as coisas por um tempo, até a dívida que o Homero tem comigo quitar ou ele arranjar um jeito de liberar as coisas pra tu. Depois eu não tenho mais nada contra você, só vantagens, viu?
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
