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Acordei no dia seguinte com uma dor de cabeça infernal. Parecia que uma manada de bois tinha me atropelado, de tão moídos que eu tava. Aquilo era cansaço emocional, eu sabia, já que noite passada tinha sido inteiramente de fortes abalos na minha estrutura mental. Me senti nua e vulnerável ali, exposta... A sensação de dever cumprido existia, mas de certa forma, ainda era ínfima. De certa forma, eu estava conseguindo aquilo que eu planejava quando primeiro cheguei ali, mas não parecia o suficiente. Ainda faltava algo, meu trabalho não estava concluído.

Não me levantei da cama, pelo contrário, mudei de posição e fiquei ainda mais quietinha ali. Eu tava indisposta pensando em tudo o que tinha sido falado ontem, pensando na minha filha. Foi difícil encarar pela primeira vez o mal que tudo aquilo tinha feito ao Barbás... Ver as cicatrizes nele e como aquilo tinha o marcado e mudado pra sempre foi mais que chocante, foi uma das coisas mais tristes que eu tinha visto na minha vida. Como ele, aquilo me dilacerado o coração... ver o sofrimento e a mágoa dele estampados no rosto, por baixo da máscara de indiferença, me infringiu uma dor quase física. Agora, além do sofrimento por estar longe da Maria num momento como aquele, eu ainda tinha que lidar com os olhos raivosos e rancorosos do Barbás. Todos os dois eram como pedras amarradas ao meu pescoço, que me fariam afundar num poço de tristeza até morrer de desgosto.

Madalena tentou levar comida pra mim o dia todo. No almoço, depois na janta, mas eu não recebi. Eu não queria comer, não queria ver ninguém, muito menos conversar. Eu só queria um tempo pra me afogar em paz na dor que eu tava sentindo. Eventualmente eu sabia que eu ia ter que superar aquelas coisas e levantar minha cabeça pra continuar lutando, mas o dia não seria hoje.

Dormi sem comer naquela noite e o dia seguinte veio comigo me sentindo ainda pior que antes. Vomitei o conteúdo nulo do meu estômago durante a madrugada e voltei a tentar dormir. Meus olhos tinham olheiras enormes e eu tava meio pálida também, parecia meio morta... Eu me sentia um pouco assim também, pra falar a verdade. Naquele dia, porém, Madalena não parecia muito disposta a aceitar meus 'nãos' como resposta e saiu abrindo a porta do meu quarto, invadindo meu espaço. Ela saiu abrindo todas as cortinas e jogando o sol na minha cara. Me encolhi ainda mais e ela tirou o lençol de mim.

— Vamos tomar café da manhã, vem. Fiz bem reforçado pra você, já que não comeu nada ontem. — Convidou e eu quis inicialmente ignorar. Minha barriga doeu e roncou. Eu devia realmenre comer algo... só me faltava força pra levantar dali. Eu tava curtindo minha viagem ao inferno antes de ter que ficar com a cabeça pra fora da água de novo. — O patrão que mandou, filha, vem logo, vem. —Ela pegou minha mão e me puxou para que eu me sentasse. Pera, achei que eu não tinha entendido direito... o patrão?

— O Barbás? — Perguntei, meio descrente e chocada que ele tivesse envolvido em alguma coisa sobre aquilo.

— É, ele mandou te dar café da manhã hoje, já que tu não comeu ontem. Vamo, menina. — Ela tava apressada e eu tava me sentindo na merda. Totalmente na merda.

Levantei, sentindo meu corpo doer e os olhos arderem. Saí do quarto e fiz o caminho até a cozinha. Eu não sabia bem se ele tinha dado autorização pra me tirar dos aposentos onde eu tava trancado, ou só de me oferecerem mais uma refeição... de qualquer jeito, a Madalena quis me levar pra comer na cozinha e eu não recusei.

Sentei no balcão e a outra menina que trabalha com ela me olhou curiosa. Eu notei o olhar da mais velha pra ela, repreensão. Não sabia o que tava pegando, mas eu tava cansada demais pra ter interesse em saber. Ela colocou um sanduíche de queijo e presunto pra mim, depois um copo de suco de laranja, e ficou me olhando atentamente, me pressionando a comer. Meu estômago tava implorando por alimento, então, eu comecei a saciar minha fome em silêncio. Depois de um tempo, enquanto eu tomava meu suco, me demorei no olhar para a outra garota que trabalhava ela. Ela tava me encarando tanto que começava a me incomodar.

— Que foi? — Perguntei.

— Nada não, tava só me perguntando porque tu tá sendo trancada aqui. — Ela piscou falsamente.

— Não é da tua conta, Marcela. — Madalena cortou, jogando um perfex e um veja na frente dela. — Vai lá limpar os móveis da sala, anda. Não tô podendo abaixar pra tirar pó de lá.

— Já tô indo, vai... — Ela deu de ombros, pegando os itens. — Vai me contar?

— Pendências do passado. — Dei de ombros. — Madalena, eu posso ligar pra minha casa?

— Melhor não, menina. — Madalena voltou pra perto de nós duas. — Da última vez, o patrão quase me matou, isso porque eu disse que você tinha me dado um perdido na saída do banheiro. — A única vez que eu podia sair do quarto era pra usar um dos banheiros ali do primeiro andar pra tomar banho, uma vez por dia no máximo, o que ficava próximo a cozinha. O da dependência de empregada era só um lavabo.

— Não quero te arrumar problema, tá de boa. — Concordei com a cabeça. Eu ia ter que dar outro jeito de entrar em contato com a minha família.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora