[...]
Levantei cedo e fui pro escritório que hoje era dia de pagar arrego. Tinha que separar dinheiro e organizar toda a ronda do dia, que era especial pra blindar as entradas da favela. Quando o pessoal começou a chegar, já tava quase tudo pronto. Ajeitei meu fuzil nas costas e fui eu mesmo lá entregar o dinheiro que ia direto pra mão do comandante do batalhão da Gávea.
— Tá ai, irmão. Vai contar? — Entreguei a mochila pro motoqueiro com a moto característica da PM, com uma viatura atrás.
— Tá tranquilo, meu parceiro. — O motoqueiro bateu a mão dele com a minha. Enquanto a equipe do carro se recolheu e começou a fazer a manobra pra voltar de onde vieram, ele nem colocou o capacete. — Comandante tem um aviso pra te dar. A gente pegou uma movimentação do pessoal do Rio Comprido por Copacabana e pela Gávea aqui, rondando alguma coisa por aqui, geralmente no final do dia, início da noite. Abre o olho.
— Deixa eles comigo. — Respondi com segurança. Ele concordou com a cabeça e colocou o capacete, subindo de novo na moto. Fiquei observando enquanto eles se afastarem, sem grandes incidentes. Olhei pro Túlio. — Irmão, isso que ele falou ai. Quero olheiro de frente pra autoestrada e lá na parte de trás, da Gávea. Se pegar qualquer coisa suspeita, bota pra dentro daquele jeito.
— Tu acha que é por causa da Nina? — Perguntou, cruzando os braços.
— Não sei, mas é bom pra ela que não seja. — Olhei de canto pra ele. Nós voltamos pra principal andando. — Até onde eu sei, o pai dela tá morto e tem outro no lugar dele. Não tem relação nenhuma com a família, mas eu não sei até onde a mãe dela ainda tem influência lá.
— Não sabia que a mãe era envolvida.
— Não é, mas tem moral de cria lá. Antes de vir pra cá, ela foi de lá. — Contei as informações que eu tinha colhido com o passar dos anos marcando em cima daquela gente. — A mãe dela tá no hospital com a Maria, então, eu não sei se isso é verdade. Não quero ficar me preocupando com merda sem fundamento. Já tenho muito coisa pra me preocupar.
— Tá certo, irmão. Vai voltar pro escritório?
— Não, vou fazer a ronda, preciso levar um papo com o gerente da 99. — Túlio me olhou preocupado. Nos últimos meses, eu e o Irã tavamos divergindo numa porrada de pontos, a ponto de eu estar bem perto de dar a boca dele pra outro. Eu teria feito se isso não fosse causar um mal estar entre os outros gerentes da favela, coisa que eu queria evitar, pelo menos por enquanto. Aquilo ali era muito mais política que qualquer outra coisa, era jogo de interesses. Enquanto todo mundo tivesse feliz, ninguém ia me arranjar problema e meus negócios iam prosperar. Tem uma hora nessa vida que tem que se escolher entre a vaidade e a inteligência. Eu escolhi agir racionalmente e, assim, eu já tava indo pro meu segundo ano a frente da favela. Como eu mantinha a minha autoridade, mesmo passando por cima das minhas vontades e pensando no efeito das coisas a longo prazo? Botando as pessoas no lugar delas.
Fiz a ronda com a tropa da vez, aproveitando o rolé de moto pra esfriar minha cabeça. Parei na boca do 99 e fui lá ver como estavam as coisas ali. Cumprimentei os caras que tavam patrulhando ali e entrei no barraco, parando de frente pro gerente, com a arma pendendo no ombro esquerdo e os seguranças tomando o pequeno espaço que ele tinha ali. Ele levantou os olhos pra mim e se levantou.
— Bom dia, patrão. — Cumprimentou.
— Quantos kgs tu pegou do depósito? — Perguntei de uma vez, sem rodeio. A cota dele era X, o filho da puta tinha ido lá e pegado mais 10 tilojos sem avisar a ninguém. Faltou na Vila Verde e deu uma merda do caralho. Ele engoliu em seco, sabendo que tinha sigo pego.
— Foi só pra completar...
— Qual tua cota? — Interrompi, perguntando mais uma vez.
— Porra, não é o suficiente. Os maluco da Laborieux é bem menor e recebe muito mais pra vender pros playboys da Gávea. — Reclamou.
— Não interessa, irmão. Eu não te perguntei como eu divido a carga entre vocês. Eu te dei a tua cota, tu pega a tua cota e vende, acabou. A hora que tu começar a esvaziar o teu depósito mais rápido que o da Laborieux, tu ganha mais droga pra vender. É simples. — Expliquei como quem ensina 2 + 2 pra uma criança. — O que tu fez foi roubar dos teus parceiros. Tu tá no erro.
Ele até tentou começar a argumentar, mas se calou e sentou de novo, em sinal claro de submissão. Mesmo assim, seus olhos semicerrados davam a cara da raiva. Ele parecia constrangido também, era foda tomar bronca e ser desmoralizado na frente dos subordinados. Já tinha passado muito por isso na minha época de gerente... Dia de caça, dia do caçador.
— Não adianta ficar puto, aliás, tu tinha que estar muito feliz, porque tu sabe como as coisas funcionam por aqui. — Apoiei a mão na mesa onde ele tava sentado. — Anda na linha, minha paciência contigo tá no final. Não vai ter próxima vez. — Bati a mão na madeira e endireitei a coluna. Dei as costas pra sair dali, antes de sair, porém, parei na porta. Aquilo não era o suficiente pra tirar a marra dele. — Semana que vem, tua cota vai ser a metade do que ela é hoje.
— Como que fecha a conta assim? — Perguntou, com um tom urgente na voz.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Storie d'Amoreㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
