— Tô indo dormir aqui, boa noite. Amanhã cês me contam o que rolou no baile. — Foi no quintalzinho dar o 'boa noite', como todo dia. Eles deram tchauzinho pra mim e eu fechei a porta da frente. Fui no quarto de cima, dei uma organizada nos travesseiros, apaguei tudo e fui pra cozinha. Subi no armário da cozinha e abri a janela, metendo a cara pro vão. Era muito estreito, não sabia se eu passava nem de lado, e pra piorar ainda tinha uns lixos meio suspeitos ali. Bom... o que a gente não fazia pra ter um momentinho fora da clausura, né? Lili tinha que cantar, cacete.
Sentei na parte de alumínio da janela e joguei minhas pernas por lado de fora, tomando coragem pra pular. Não era alto nem nada, ia se fácil voltar, o problema é que era extremamente apertado. Notei isso quando desci, porque eu meio que me arranhei inteira enquanto me arrastava pelo vãozinho. Meu corpo cabia MUITO mal ali e o cheiro não era lá muito bom... e eu tava de chinelo. Certeza que a leptospirose ia me encontrar se eu fizesse aquilo com frequência. Era um caminho meio longo, porque atrás daquela casa, tinha outra e só então chegava no beco de trás, onde já tinha espaço pra andar decentemente. Felizmente a coisa foi desafunilando conforme eu chegava na ruazinha que eu queria.
Quando saí do outro lado, eu tinha certeza que eu ia chorar de felicidade. Olhei pras minhas pernas, vendo que tava tudo certo, apesar de ter uns vergões vermelhos de arranhado, mas que não saiam sangue nem nada. Tudo certo. Meus pés que tavam meio na depressão, porque eu tinha quase certeza que tinha caco de vidro naquele cu de vão. Quem jogava garrafa de cerveja ali era um tosco, fodam-se.
Eu nem me incomodei muito, porque eu tinha que chegar na casa dos meus irmãos e saber onde eu tava. Fui andando meio de cabeça baixa, com medo de alguém me reconhecer. Eu tava com shorts jeans bem larguinho com cordinha pra amarrar na cintura e uma regata preta. Comum, nada preparada pra um baile, mas isso é o de menos. Não era curtir o que eu queria. Fui andando, andando pela escuridão dos becos e acabei descobrindo que tava ali no início da Paula Brito. Assim, eu precisava descer até os meados da Cachopa pra ir no lugar onde eu tinha morado com meus irmãos. Desci andando pela principal, seguindo o fluxo de pessoas que tavam indo pro baile, andando pelo cantinho e tentando me misturar nas pessoas pra não chamar a atenção. Sempre de rosto abaixado e mais no escuro. Meu cu tava trancadasso, óbvio, mas meus olhos estavam no prêmios.
Andei um tempo até chegar na Cachopa, onde eu virei e subi a rua. Na frente da casa dos meus irmãos, eu bati palma, rezando pra eles estarem em casa e não no baile. Sabia que eles atrasavam bastante pra ir, então, minhas chances eram boas. Bom... isso era o que eu achava, até dar de cara com uma senhorinha que veio me atender no portão... e definitivamente não era o Russo ou a Lila.
— Que foi, menina? Isso são horas? — Perguntou, meio puta pela minha intromissão.
— Aqui não mora o Wallace ou a Dalila, senhora? — Questionei, sentindo meu coração queimar no peito.
— Não, eu já moro aqui há mais de 2 anos, menina. — Disse e eu fiquei zonza. Podia ter caído dura ali na hora mesmo. Puta que pariu e agora?
— Mas eles moravam aqui antes... A senhora comprou a casa? Conhece eles? — Eu quase chorei na frente dela. Acho que por ver o meu desespero, ela resolveu não bater o portão na minha cara com toda a força e mandar eu ir pra casa dormir. — Pelo amor de Deus, eu preciso falar com eles, é muito urgente.
— Eu alugo a casa do seu Russo, menina. — Explicou. — Eu posso tentar ligar pra ele, mas tá tarde já...
— Eu sei, eu sei, mas ele não vai estar dormindo. Por favor, só... liga pra ele e diz que a irmã dele tá aqui esperando ele vir.
— Espera ai. — Ela falou, entrando pra dentro de casa e pegando uma agendinha e um telefone fixo. Ela procurou por longos e dolorosos minutos o número dele e discou no aparelho sem fio dela. — Seu Russo? Boa noite, é a dona Silvana... isso... então, é que tem uma moça aqui na minha porta procurando o senhor. Ela diz que é sua irmã... — Enquanto ela falava, eu me sentia a beira de um infarto. Meu coração queimava dentro do peito. — É... sua irmã... Ele tá perguntando seu nome, menina.
— Diz que é a irmã dele que tava viajando, morando longe. — Contei. — Mãe da Maria.
— É a sua irmã que mora longe, mãe da Maria... É, ela é meio moreninha assim, com os cabelos lisos, moça bonita... Tá, tá bom. Vou falar pra ela aqui. — E desligou. Fiquei só na ansiedade pela expectativa. — Ele tá vindo, menina. Entra ai que tá tarde já, vem.
Nem contestei, só entrei pra parte da frente da casa e sentei no banquinho colado no muro da casa. Queria sair da rua pra não dar muito na cara... Eu não esperei sentir as coisas que senti quando entrei ali dentro da casa que um dia já tinha sido minha... Olhei ao redor, reconhecendo cada centímetro daquela fachada que, apesar de ter uma cor diferente da que eu me lembrava, ainda era muito a minha casinha. Fui ficando emocional e quando menos esperei, eu tava soluçando perto da senhora, enquanto olhava tudo com os olhos brilhantes de uma criança. Chorei demais, lembrando de tudo o que aquele pedacinho de terra tinha testemunhado na minha vida... Ali eu tinha sido feliz e feito as pessoas que eu amava feliz. Ali, eu descobri o amor do Barbás há muitos anos... ali eu descobri a Maria... ali eu descobri a complicidade que eu tinha com meus irmãos, Wallace e Dalila, que não eram de sangue, mas eram de alma. Ali, eu amei, lutei, chorei, dei risada e vivi como nunca. Ali, naquele lugarzinho.
A senhorinha ficou acordada comigo ali, passando a mão nas minhas costas e me consolando enquanto eu chorava. Um tempinho depois, ouvimos uma batida no portão de ferro e a dona da casa levantou pra ir abrir. Dali saiu um dos meu grandes amores, Russo, hoje o gerente-geral da Rocinha e o meu maior defensor desde que eu era só uma pirralha imbecil, meu irmão.
— Nina, pelo amor de Deus... — Ele quase chorou também quando me viu ali e eu desconfiei que não era de felicidade. Só pelo tom da voz dele, eu vi a preocupação. — Como?
— Eu tô aqui há quase uma semana, Wallace. — Contei, limpando as lágrimas do rosto pra não preocupar ele. Não queria que ele pensasse que era por algo além de emoção por estar na minha antiga casa. Não ia me lamentar pelas coisas que me aconteciam... eu tava indo a luta.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
