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— Acho que tá todo mundo ligado porque a gente tá aqui hoje. — Ele começou, ficando de pé. Seus olhos em mim, o tempo todo. Eu o encarei de volta. — Faz 5 anos que rolou uma parada que mudou a nossa vida, pra bem ou pra mal. Quem sobrou de nós tá aqui, na pureza, pra passar essa história a limpo. Nós é justo, então pra que seja feito a justiça, ela tá aqui, hoje, de cara limpa. — Disse, de maneira firme. Nem um pouco com a forçada expressão de apatia que ele tinha mais cedo. Aquele não era William, era Barbás, o frente da Rocinha. — Vocês já sabem como é que funciona. Cada um aqui tem um papo pra dar, um voto, pra gente decidir qual vai ser o destino dela. 

Todo mundo ouviu em silêncio, concordando com o que era falado por ele. Controlei minha respiração descompassada, lembrando exatamente de como eu me sentia quando a Rocinha estava em guerra, tantos anos atrás. Por trás de cada beco que eu entrava, tinha medo, tinha vontade de virar as costas e ir embora, tinha a mão soando na empunhadura da arma. Por trás de cada tiro, um momento mínimo pra controlar a respiração e apertar o gatilho. Era tudo sobre controle... acertar ou errar o inimigo era um negócio que ia além de mira e habilidade com a arma. Era sobre quem controlava melhor os próprios sentimentos... ou quem tinha menos medo de morrer. 

— Marina chegou nessa favela e entrou pra minha boca, quem não lembra. A gente chamou ela de Índia, vulgo que ela carrega até hoje. — Ele começou a falar, andando pelo círculo ao meu redor. — Ela foi minha mulher. Mais que minha mulher, ela me ajudou a tomar a favela do filho da puta M7. Eu sou homem o suficiente pra falar que, a verdade, é que sozinho eu não teria conseguido expulsar ele daqui. Não teria conseguido matar aquele verme. — Barbás voltou a me olhar por um momento, parando de andar.  — Falar que ela foi minha mulher é muito pouco pro que ela fez pela Rocinha. Pra isso, eu e todo mundo aqui tem que dar crédito pra ela. Todos vocês trocaram tiro do lado dela um dia, sabem qual foi a caminhada. — E voltou a caminhar enquanto falava. — Foi ela quem meteu a cara e conseguiu trazer o Mandarim pro nosso lado, que foi o que faltava pra gente virar a sorte a nosso favor.  Depois, as coisas terminaram na merda que terminaram, como já tá todo mundo ligado. 

Suspirei, sabendo que aquilo era o peso que curvava minhas costas pra baixo. E era pesado... parecia pesar o mundo todo sobre os meus ombros. 

— Ninguém aqui tem que esquecer o que ela já fez pela Rocinha, as coisas boas. — Ele finalmente voltou pra sua cadeira. — Mas hoje a gente tá aqui pra falar sobre o que rolou depois. Um irmão que todo mundo aqui confia a vida, que eu confio a minhas costas, ouviu o Mandarim falando dela pro Parma. Eu ouvi ele ligar pra ela quando eu fui preso. — Disse, resumindo tudo naquele momento em específico. — E se fosse só isso... se pá a gente não taria aqui hoje. — Ele voltou a me olhar com intensidade, me contando o que ele não ia falar pra mais ninguém ali. Não com palavras. — Enganos rolam, mas coincidências... 

Eu sabia pelo que ele me culpava. Ele, ali, deixava muito claro que ele não me perdoava por ter ido embora. Barbás ia acreditar em mim se eu ficasse, eu sabia. Se eu tivesse insistido nele, ele teria colocado até a palavra do TK em cheque. Naquela época, nem por um momento, eu duvidava por amor que ele sentia por mim. 

Barbás queria que eu tivesse ficado. 

E eu queria ter ficado pra contar a verdade pra ele. Pra ajudar ele a passar pela merda que era tirar uma cadeia. 

Mas como Barbás ia me proteger daqueles que realmente achavam que eu tinha os traído atrás das grades? Se eu não pensasse no bebêzinho que eu tinha na minha barriga, se eu não o protegesse... quem protegeria? Quando ele caiu, eu fiquei sozinha. Isso ele não conseguia enxergar. 

— Depois do que aconteceu, que eu caí na troia do pai dela, ela fugiu. — Ele concluiu. 

Um silêncio horroroso começou, tão denso que poderia quase ser tocado. Tensão. Eu e o Barbás nos olhávamos deixando todas os rancores suspendendo-se no ar como poeira. Os sentimentos que nós jogamos de escanteio nas últimas semanas ressurgiram como uma avalanche. Raiva, mágoa, tristeza, decepção... dor. 

— Cês vão me desculpar, mas pra mim só foge quem tem culpa no cartório. — Um homem a quem eu conhecia há muitos anos, de vista, falou já olhando pro Russo. As desculpas eram pra ele. — Se saiu fora, tava devendo. 

Uma enxurrada de concordância com ele se seguiram e eu fechei os olhos. Busquei dentro de mim força, armas pra lutar. Eles estavam errados. Todos estavam errados. Eu sabia disso.

— É, eu fugi. — Minha voz começou baixa como um sussurro, mas ganhou sustância com a confiança da qual eu fui me enchendo. Eu não sabia que onde vinha força pra lutar contra aquela multidão, mas ela tava aqui, me mantendo de pé. — Eu fugi sim, não tô aqui pra negar isso não. Só que eu não fui embora pelos motivos que vocês tão me acusando não. Eu fui embora porque eu tava grávida. 

Silêncio. 

— Isso nenhum de vocês pode me acusar de estar mentindo, vocês já devem ter cansado de ouvir por aí que o Barbás tem mais uma filha. É a minha filha. Ela tem 5 anos, o que só prova que o que eu tô falando é a mais pura verdade. Tem um monte de fotos ai, da minha gravidez, da Maria Ísis quando nasceu, de todos os aniversários dela. Um monte. — Apontei pra caixa. Caminhei até ela, pegando umas fotos bem emblemáticas dela e jogando uma a uma na chão, no centro do semicírculo, pra que todos pudessem ver. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora