Cheguei no lugar que ele tinha falado que tinha deixado eles muito rápido e parei uns metros antes pra não dar bandeira com o barulho de moto. Era bom eles estarem ali, porque se eles tivesse ido pra porra do meio do mato, eu não sabia nem o que eu era capaz de fazer, maluco.
Mas eles tavam lá, vi de lá da rua mesmo, mas o caminho até eles era muito aberto e muito grande. Fui por trás das casas da Laborieux, ali antes da ribanceira e beirado a mata, pra sair bem perto de onde eles tavam. Fiquei um tempo oculto ali, com meus homens atrás de mim. Tocava uma música no celular do doutorzinho e a Nina dançava animada de pé, de um jeito muito doido, enquanto ele tava sentado olhando o horizonte dali, de onde o sol já começava a nascer. Ela sorria de um jeito que há muito tempo eu não via, dava pra ver que ela tava feliz pra caralho. Descabelada, com a maquiagem bem mais leve que no inicio da noite e sem os sapatos, ela parecia bem. Quando falava, a voz descompassada lembrava que ela não tava sóbria.
— Eu fui feliz pra porra aqui, Gui. — Ela contou pra ele. — Foi maneiro demais crescer aqui. Minha infância foi foda, minha adolescência... eu só fazia cagada, tu não tem noção.
— Tirando as armas, as droga, as doideiras... — Ele fez um sinal de arma com a mão. — Aqui é maneiro. O nascer do sol é bonito.
— Quer dizer que tu não gosta de... — E ela fez um sinal de arma também. — E tu gosta de mim porque então?
— Sei lá, mulher. — Ele deu de ombros. — Deve ser porque tu é doida além de bandida... e porque eu quase nunca te via com esse troço ai.
— Mas tu sempre soube o que eu fazia. — Ela sentou do lado dele, se desequilibrando no processo.
— É, mas eu sempre separei La Índia da Nina. — Disse, olhando pra ela do chão. — Você fazia os negócios lá e te chamavam de Índia, mas com a Ísis e comigo tu era só a Nina. — Ela não falou nada, mas respirou fundo. Aquele papo fez meu sangue ferver de novo. — Você não comprou água não, né Nina? A ressaca vai matar a gente aqui mesmo, que dor de cabeça...
Saí de trás da casa, chegando logo bem no fim do campinho desativado que tinha ali. Nina parou quando me viu, dando um soluço e demorando pra reagir.
— Não vai ser a ressaca que vai matar você não, doutorzinho. — Disse, abaixando de uma vez e já pegando na camisa branca dele, puxando pra cima. Ele ficou sentado no meus pés e até tentou se soltar, se debatendo e querendo segurar minha mão. Tirei o canivete que eu levava comigo no tênis e abri perto do ouvido dele, colocando a lâmina contra o pescoço dele. — Quietinho, porra.
Nina ficou paralisada no lugar, com a surpresa marcando na cara dela. Ela abriu e fechou a boca várias vezes, piscou a rodo e levantou do chão, olhando de mim pro doutor e depois pros homens que tavam ao meu lado.
— Nina, tu me garantiu que ele não ia me matar, não esquece não, tá? — Ouvi o doutorzinho dizer pra ela e eu agarrei o cabelo dele, pra puxar sua cabeça pra trás.
— Ela mentiu pra tu, seu otário. — Eu disse muito sério, olhando pra ele.
— 10 anos estudando... — Ele fechou os olhos e eu achei que o cara fosse chorar ali mesmo.
— Mas ele não vai te matar não... né, Barbás? — Nina finalmente falou alguma coisa. Ela me olhou com os olhos enorme.
— Tu acha que pode fazer o que tu quiser que não dá nada, né não? Nunca dá nada. Eu que te deixei desse jeito ai, sempre pegando leve contigo. — Disse pra ela, cansado dessa porra. Quantos anos ela tinha pra correr de mim daquele jeito. — Eu não vou passar fogo no Marcinho porque o seu irmão resolveu salvar a vida dele, impedindo que ele te comesse. Agora esse aqui...
— A gente é só amigo. — Ela sussurrou, se aproximando em passos lentos. — Ele é um dos meus melhores amigos, a gente só tava se divertindo bebendo e dançando e... fugindo.
Neguei com a cabeça, querendo muito cortar a garganta daquele otário. Olhei pra ela com raiva. Ela ia mandar essa ai mesmo pra mim...
— Não vem com essa...
— É verdade, porra. — Ela subiu o tom de voz quando chegou mais perto. Seus olhos estavam enormes e eu com certeza de cortado um pouco da onda do álcool dela. — Ele segurou muito a minha barra com a Ísis, ele é o médico dela, eu te disse... A gente é só amigo, eu juro. Eu juro. De verdade, eu juro.
Ele começou a soltar o ar com força pela boca e pressionar a boca. Ela ia chorar por aquele putinho?
— Por favor, deixa ele. — Ela sussurrou pra mim, muito perto de nós dois agora. — A gente não fez nada, só saímos juntos do baile.
— Saíram juntos por quê? Eu sei bem o caralho da sua intenção. A gente não tá jogando? Então sustenta, porra. — Respondi atropelando ela com as palavras. Eu queria que ela sentisse a porra que eu tava sentindo por dentro também. Parecia que eu tava pegando fogo, minha mente tava vendo tudo vermelho por causa dela.
— Se você matar ele, eu vou matar aquela vaca lá também. Qual o nome dela mermo? Juliana? — Seus olhos mudaram quando ela estreitou os olhos pra mim. Seu rosto assumindo uma expressão muito mais determinada.
Sorri pra ela de canto, desafiando a ela ir atrás e fazer. Queria ver se ia ter coragem de ir mesmo ou ia ficar de gracinha.
— Já que é assim... — Pressionei a faca no pescoço do doutorzinho e vi um filete de sangue escorrer, manchando a camisa branca. Eu não ia matar ele ali, não por enquanto, mas eu queria ver a reação dela.
Não sei o que que passou na cabeça dela, mas a Nina pressionou a mão na parte de trás do canivete, afastando a lâmina do pescoço dele, mas enfiando rasgando a palma da mão dela no processo. Porra, ela nunca agia como eu esperava.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
