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Eu ri do que ela falou, era absurdo de muitas maneiras. Ela não podia estar falando sério. Porra, eu não precisava nem explicar o motivo daquilo ser impossível e contar como mais uma das muitas mentiras dela... mas eu ainda tinha uma sensação. Eu estava com ela na minha cabeça, sentindo o cheiro dela junto com lavanda.

— Eu tô falando sério. — Ela repetiu. — Eu tô falando muito sério. Me admira você, na tua posição, tendo vivido tudo o que você viveu e eu sei, porque eu tive do teu lado, fazer o que tu fez no baile de ontem. Não posso fazer nada se tu bebeu até esquecer as merdas que você fez.

— Quê? — E ela sabia daquilo como? Como? Arregalei os olhos por um momento, depois franzi a testa e pressionei mais ela. — Como tu sabe disso?

— Eu tava lá. — Estreitou os olhos pra mim. — Se tu quer pegar alguém por ter ignorado suas ordens pra me manter fechada num buraco qualquer e deixado isso aqui no meu pescoço, pode começar a correr atrás do seu próprio rabo. — Vociferou e eu continuei sem entender. Busquei na minha mente, qualquer coisa que fosse mais que só aquela sensação, mais do que coisas subjetivas. Como isso tinha acontecido? — Deixa os meninos em paz, eles não tem culpa de nada, se você não consegue se controlar.

— Como assim foi eu? Como tu foi até em mim se tu tá aqui com dois maluco de guardando na porta 24h? — Perguntei em um tom baixo.

— Você pode pensar em mim como um rato, faz como tu preferir. Onde tiver lugar pra eu sair, eu vou dar um jeito. Você pode me manter aqui trancada como se eu não fosse ninguém, mas eu tenho uma vida lá fora. Tu pode não acreditar, mas eu tenho um filha que tá doente e eu preciso de notícias dela. Eu sou mãe, porra. — Os olhos dela lacrimejaram e ela voltou a empurrar contra mim de novo. Eu soltei ela, que se afastou de mim pro outro ponto do quarto.

— Saiu como? Eles te deixaram? — Perguntei.

— Claro que não, esses meninos lambem o chão que tu pisa. — Falou, parecendo meio amargurada. — Eu pulei a janela da cozinha.

Fui pro exato lugar onde ela tinha me dito e vi a porra do vão entre uma casa e outra. Eu nunca tinha imaginado que essa demente ia ter a coragem de pular aquilo. Era muito estreito e sujo... Bufei com raiva, socando a porra do balcão. Era impossível controlar ela... E porra, como assim? Tinha sido ela a me levar pra casa? Coloquei as duas mãos na cabeça, repassando tudo o que eu tinha na memória lentamente. Saí do baile, briguei com meus seguranças, andei... Depois branco... depois uma silhueta contra a luz. Silhueta de mulher. Não era a Jéssica? Era a Marina? Aquilo era novidade pra mim, mais ainda imaginar quem podia estar lá...

— A culpa não é dos meninos, tá? — Ela repetiu nas minhas costas. — Ele não viram e nem tinham como. Eu só me aproveitei da maneira como a casa foi construída, só isso. Fui só tentar pra minha casa e falar com a minha filha, só isso. Não foi por maldade, mas eu não tinha como...

Na minha mente, eu fui tentando juntar todos os fragmentos de memória que eu tinha e entender o que tinha acontecido. Rua... ela na rua. Depois, eu me lembrava do banho. Com ela? Era ela que eu via, quem eu sentia. Nada era concreto, mas era um sentimento que eu me lembro de ter sentido. Eu lembrava do cheiro dela... Não o cheiro do perfume que costumava se misturar com o dela... o cheiro da pele dela, que só ela tinha. Se eu lembrava disso, o quão perto eu tinha estado dela? Engoli em seco. Mais uma vez, eu me senti sem chão.

— O que aconteceu... entre a gente? — Minha voz foi um sussurro.

— Foi só... um descontrole, eu acho. — Sussurrou de volta no mesmo tom. Virei pra olhar pra ela, que parecia muito sem graça, com as bochechas vermelhas e quentes. — A gente confundiu um pouco as coisas... — Seus olhos estavam grudados no chão.

— A gente...? — Deixei a conotação no ar.

— Não. — Ela se apressou em negar. — Não, claro que não. Eu nunca ia me submeter a uma situação assim... você tava bêbado. Eu não ia querer estar com alguém naquele estado e nem você ia querer acordar do meu lado. — Negou com a cabeça e eu vi lágrimas voltarem pros olhos dela. — Não era pra ter acontecido, eu só achei você muito louco na rua e quis levar pra casa. Não queria que nada ruim te acontecesse...

Neguei com a cabeça, sentindo alguma coisa me comer por dentro. Eu não queria levar em conta nada que saísse da boca dela, mas evidências eram evidências. Tudo o que ela dizia batia com as coisas que eu conseguia resgatar da minha mente, fazia sentido, apesar de parecer ridiculamente impossível. Os moleques pareciam tranquilos quando eu cheguei, nenhum deles tinha aparentado mentir pra mim... Ela realmente podia ter saído por ali e confessado pra salvar a pele dos caras que tavam segurando o ponto dela, fazia sentido com o senso de justiça da Marina. Alguém tinha estado na minha casa, toda aquela organização, a maneira como tudo aconteceu parecia conduzir pra isso. Eu e o Túlio estávamos cogitando a Jéssica... Eu ia ligar pra ela pra confirmar, mas eu duvidava que precisasse. Eu tinha quase certeza que quem tinha estado no chuveiro comigo era a Marina. Tudo batia.

— Eu só te deixei no mínimo apresentável e botei na cama. Foi só isso. — Contou, parecendo muito constrangida.

— E como isso ai aconteceu? — Me referi ao chupão e ela entendeu. IRMÃO. EU TINHA DEIXADO UM CHUPÃO NELA. COMO ISSO TINHA ACONTECIDO? Eu achei que eu tivesse que cavar um buraco e entrar dentro. Caralho, que inferno. Puta que pariu. Minha ficha não tinha caído plenamente até então. Eu. Tinha. Deixado. Um. Chupão. Nela. Que vontade de passar fogo em mim... Ela era muito perigosa pra mim. Muito.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora