— Ele sabe que você deixou ela sair? — A menina perguntou pra Madalena com um olhar acusado.
— Já falei que isso não é problema teu. Vai logo fazer teu serviço, vai... — Brigou, quase empurrando ela pra fora da cozinha. — Termina de comer ai, menina.
Fiquei ali sozinha, enrolando pra terminar de comer. Depois de quase dois dias de surto, era hora de eu colocar minha cabeça no lugar, minha mente pra funcionar... As engrenagens do meu cérebro começaram a rodar rapidamente pra procurar uma solução pro meu problema. Como eu ia fazer o Barbás e a Maria se encontrarem logo agora? Ela tava no hospital e, pelo menos pelo próximo mês, ia estar na fase intensa da terapia, totalmente inviável fazer ela pra cá nesse estado. Só que ele tinha pressa... e de certa forma, eu também tinha. Logo mais, eu não ia ter poder nenhum sobre a carga dela. Enquanto eu tava aqui presa e desperdiçando meu tempo, o relógio corria contra mim. Eu tinha que pensar...
Voltei pro meu quarto, não querendo arrumar problema pra Madalena, nem parecer indisciplinada. Não era assim que eu ia lutar. Voltei pro meu quarto, querendo aproveitar meu tempo ocioso pra bolar alguma coisa.
[...]
— Menina? — Ouvi uma batida contra o vidro da porta. Madalena abriu a porta pra mim e me deu a minha janta. — Você não vai poder sair agora a noite, Nina. Barbás tá com visita ai, parece que tão falando de você lá na sala. O negócio tá quente.
— De mim? — Perguntei, arregalando os olhos. Ele tava falando de mim pra quem, meu Deus?
— De você. É o seu Russo. Ele é seu irmão, não é? — Perguntou.
— É... O Russo tá aí? Me procurando, será? — Levei uma mão à testa. Tinha sido um erro ter envolvido eles nessa história.
— Não sei, menina, não fiquei pra ouvir. Vive mais quem é cego e surdo, sabe? — Falou. Madalena sabia bem onde ela tava se metendo, sabia que nada dali podia sair sob risco de vida.
— Caralho... — Perdi o compasso da minha respiração. — Dona Lena, tem como eu tomar um banho agora? É que tipo... eu tô menstruada, preciso urgentemente. — Eu não tava menstruada, mas mesmo assim, eu precisava de uma desculpa pra sair. Madalena me olhou suspeita e quis negar, mas eu insisti muito. Coloquei minha comida na cama e fui buscar minha toalha, quase forçando ela a me levar até o banheiro da cozinha.
Ela acabou se deixando levar por mim... Como sempre. Entrei pra dentro do banheiro direto e ela ficou na porta, como de costume. Tomei um banho meio correndo, lavei meus cabelos pra deixar mais convincente e me vesti. Na saída do banheiro, abri a pia e molhei o chão próximo a porta com as mãos mesmo. Ri comigo mesma, achando aquilo tudo genial. O que eu queria era simples: que o meu irmão me visse e parasse de se preocupar, antes que ele arrumasse problemas pra si mesmo.
Abri a porta e, na hora de sair, fingi que tinha caído e fiz um show. Agarrei meu tornozelo esquerdo com as duas mãos e dei um gritinho agudo. Prendi o riso e cheguei a ficar vermelha, o que só deixou minha história mais realista. Madalena veio pro meu lado e começou a analisar meu pé, enquanto eu reclamava de dor o mais audivelmente que podia.
— Ai, ai, ai. Não aperta, tá doendo. — Reclamei fingidamente, chorosa.
— Vou buscar um gelo, pera ai, menina. — Falou e saiu. Fiquei ali sozinha só por uns 15 segundos, no máximo. Logo eu tive a certeza de que tudo tinha dado certo...
— O que que houve aqui? — Ouvi a voz do Barbás na cozinha e eu encarnei no meu melhor espírito de atriz. Madalena apontou pra mim e eu o vi despontar no corredor, com meu irmão no encalço dele. — Que?
— Não rolou nada, eu só caí. — Respondi, me escorando nas paredes pra me levantar, deixando o meu pé falsamente machucado levantado. — Oi, Wallace.
— Nina... — Ela deu sorrisinho aliviado. — Tá tudo bem?
— Tô de boa. — Fiz um joinha pra ele, sabendo que me ver ali em boas condições ia aliviar o coração dele. Sabia que eventualmente ele ia correr atrás de mim, não ia aceitar meu sumiço do nada. — De verdade. — Madalena chegou com o gelo pra eu colocar no meu pé, enquanto eu estava encostada na parede.
— Irmão, tu já viu o que queria ver, não viu? — Ele olhou pro Russo com raiva. — Então mete o pé da minha casa, antes que eu me estresse contigo de verdade. — Wallace desviou o olhar pra mim de novo e eu fiz novamente o final de 'ok'. Ele olhou de mim pro Barbás, murmurou umas desculpas qualquer lá e deu as costas. Acho que ele não esperava me encontrar ali, provavelmente tinha isso perturbar o William por informações sobre onde estaria eu... bom, de qualquer maneira, esperava que aquilo fosse o suficiente.
Russo se afastou e eu vi alguns dos seguranças que estavam atrás dele o acompanharem pra longe dali. Barbás, por outro lado, permaneceu. Tinha alguma coisa no semblante dele que inicialmente eu não consegui compreender. Vi os seus olhos descerem lentamente pelo meu corpo, depois subirem pro meu rosto novamente em um silêncio absoluto. Pisquei, sem entender o que tava acontecendo. Olhei pra mim mesmo discretamente, tentando entender o que tinha de errado.
— Eu já sei o que tu vai perguntar. — Me apressei em dizer. Sabia que ele queria saber sobre a Maria Ísis. — E eu tive uma ideia. Quer tentar ver a Maria? Tipo... agora?
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
