TK cumprimentou o pessoal da Rua 1 e passou direto pra quadra, onde eu desci, sorri em agradecimento pra ele e segui na frente com a Maria Ísis. Ele respeitou nosso espaço e ficou encostado no carro, observando enquanto a gente se afastou para o murinho baixo que ficava na frente da grade que isolava o lugar do campo. Aquele era o lugar onde o Barbás me ensinou a atirar... O chão de terra batida deu lugar à concreto, que parecia uma reforma recente. As marcas de tiro não existiam mais lá.
Levantei a Maria Ísis e coloquei ela sentadinha no muro que batia no meu umbigo. Fiquei na frente, abraçadinha com ela e olhando o sol começando a se pôr no horizonte e começando a tingir o céu de tons de laranja e rosa. Ali era um ponto bem alta, dava pra ver tudo... Desde as casinhas da Rocinha, em um declive, até os prédios de São Conrado e até um pedacinho no mar no canto.
— Ainda acha feio? — Perguntei, apertando ela contra mim por um momentinho.
— Aqui é bonito. — Sabia que ela ia gostar da vista.
— Eu sei. Por isso que quis trazer você aqui. — Sorri pra ela. Maria tinha gostado das alianças, ela continuava com o par na mão e não tinha me pedido pra guardar até então. Ainda dedicava um pouco da sua atenção pra elas.
— Mamãe, você fez que nem aquelas tias? Com o anel?
— É, filha, a gente faz os votos e põe a aliança na pessoa que você tá casando. Você já foi a casamentos, cê sabe como é, né?
— Você ainda é casada com o meu pai? — Perguntou dando uma enroladinha no final.
— Não, amor. Quando a gente é casado com alguém, a gente vive junto com essa pessoa. Eu e o seu pai não vivemos mais juntos, você já sabe disso. — Expliquei de um jeito resumido, suspirando. Tecnicamente, eu nunca tinha me separado oficialmente, mas se for parar pra pensar, nem oficialmente eu casei. Nosso compromisso era perante Deus. — Por que, mãe? — E tinha começado o rol das perguntas difíceis de responder.
— Ah, Ísis... Eu tive que me mudar quando tava grávida de você e o seu pai não pôde me acompanhar. A gente se separou aí. — Eu não sabia como dizer mais que isso pra ela, então eu esperava que ela se desse por satisfeita com aquela resposta. — Mas... — Eu ia continuar falando quando fui interrompida com o Túlio me chamando nas minhas costas.
— Nina, eu tenho que meter o pé... — Então meu tempo tinha acabado, é isso. Eu já ia puxando a Maria pra fora do murinho, quando ele terminou a frase. — ...mas eu vou deixar você com outra pessoa aí, valeu?
Olhei pra trás pra ver o TK e encontrei ele dando um toque na mão de outra pessoa... Barbás. Pulei uma batida de coração na mesma hora e o ar deixou os mãos pulmões de uma vez só pela surpresa. Ísis olhou pra ele também por cima de mim. Ele trocou umas palavras com o Túlio e desviou os olhos pra nós duas. Não sustentei o olhar do William dessa vez, meu coração já tava pesado depois de ontem e de hoje... não sabia se eu ia aguentar ficar revivendo as nossas coisas desse jeito. Virei pra frente e olhei pra Maria.
— Filha, você quer me perguntar alguma coisa? — Questionei ela, esperando que ela me fizesse pela milésima vez o mesmo diabo de pergunta que tinha feito o dia todo.
Ela só piscou, desviando os olhos de mim pro Barbás, que eu sabia estar há alguns metros afastado de nós duas. Ela não pronunciou uma palavra sequer e me frustrou. Suspirei de novo, não sabendo como falar aquilo. Eu queria contar, meu coração queria dizer um monte de coisas, mas eu não sabia como...
— Ísis, eu... — Peguei as mãozinhas dela, levando até minha boca pra beijar elas. — Me pergunta sobre aquele buraco no seu desenho, filha. Deixa eu te falar sobre ele. — Pedi baixinho, olhando nos olhos dela. Percebi o perfume que o William usava naquele momento e eu senti a presença dele nas minhas costas. Meu coração acelerou.
— Mamãe. — Ela não completou, mas falou com uma voz manhosa, olhando por cima dos meus ombros, com certeza pro Barbás. Talvez ela tinha ficado acanhada pela presença dele...
— Pergunta, filha. — Insisti, sentindo a minha própria voz vacilar. Se eu chorasse mais aquela vez, eu ia morrer seca, certeza. Me contive, engolindo em seco, sendo forte pra prosseguir com aquilo.
— Mãe... — Ela abaixou os olhos por um momento, olhando pra alianças e depois pra mim. — O meu pai... — Ela começou sem saber como completar. Era tão fácil antes, mas agora ela devia estar sentindo a atmosfera super densa ali entre nós 3. Ou então ela só tinha achado que eu tinha ficado triste... sempre que ela insistia em falar sobre o pai, eu acabava assumindo uma expressão infeliz no rosto, que fazia ela se retrair e desistir de falar do assunto. — Eu queria saber do meu pai.
Dei um sorrisinho de canto e concordei com a cabeça.
— Tá tudo bem, eu não vou brigar. — Afirmei acariciando a mão dela com a ponta dos meus dedos. — Você não queria que eu te falasse sobre a pessoa que você nunca podia desenhar? Eu ainda me lembro daquilo, Ísis.
Ela concordou.
— Então. — Fiz um sinal com a cabeça, indicando a pessoa que estava nas minhas costas. Sabia que ele estava nos olhando, observando tudo. Ela olhou pra ele. — A vida trouxe você de volta pra ele também. O Will... — Virei o rosto pra olhá-lo pelo canto dos olhos. — O Will é o seu pai, Ísis. — Contei, voltando a encarar ela pra tentar entender o que se passava na cabecinha dela.
Quando aquelas palavras mágicas saíram da minha boca, eu cheguei a ficar tonta. Aquele segredo não tava mais enterrado fundo dentro de mim. Agora, a verdade pairava por ali, nos rodeando e se forçando entre nós... porque a verdade era sempre assim, ela sempre se iria se impor no final do dia.
Maria me olhou com os olhos arregalados, piscou várias vezes e mudou o foco da sua atenção pro William. Até então, eu não tinha ouvido uma só palavra dele.
Puxei a minha filha do muro pro meu colo, fazendo força pra erguê-la confortavelmente enquanto ela prendia suas pernas na minha cintura. Lentamente eu me virei, junto com ela, pra encontrar os olhos do Barbás. A máscara que ele usava em sua expressão, sempre apática, que escondia quase sempre os seus verdadeiros sentimentos, não estava ali. Fiquei com medo de ver o que tinha no seu olhar... aqueles sempre tão misterioso olhar. Fiquei com medo de encarar ele diretamente e descobrir o que ele estava sentindo. Eu não queria ver ódio, não queria ver os maus sentimentos dele consumindo aquele momento, por mais que eu soubesse que eram justificados.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
