Enquanto eu tava com Marizinha no hospital, eu fiquei imaginando quem poderia me ajudar francamente naquele assunto. Claro que eu podia ligar pros meus irmãos, mas eu apostava 50tão que eles iam ficar putos só com a possibilidade de aproximação que eu pretendia. A real é que, no final das contas, eu ia ter que mostrar minha cara pro Barbás mais cedo ou mais tarde por causa da Maria, então, eu ia fazer do meu jeito. Dalila e Russo seriam parciais, eu sabia, por isso, eu tinha que achar alguém que se importasse o mínimo com a minha vida... E eu já conhecia a pessoa ideal pra isso.
Liguei pra um "colega de trabalho" meu e que me devia uns favores. Homero era o fornecedor pra Rocinha e pras favelas do Barbás, sabia. Até onde eu investiguei, a Larica era a responsável por receber a carga. Era perfeito pra eu falar com ela... Liguei pra ele e pedi pra eu mesmo fazer a entrega, num lugar neutro, onde eles conferiam a droga e ela era passada a frente. Meio contrariado e confiado de mim, o fornecedor deles acabou cedendo por saber que não tinha muita moral pra me negar nada, já que por várias vezes tinha me procurado pra salvar os caminhões dele que ficavam agarrados pela estrada. Tá, era um pedido estranho, mas fazia muito sentido pra mim.
No dia seguinte, eu já pedi pra minha mãe acompanhar minha filha até o hospital pra sessão do dia e pro Barnabé assumir as pontas ali no Fallet pra mim. Saí cedo de lá pra encontrar com os motoristas do meu "amigo" paraguaio na estrada há uns bons quilômetros dali, em Jacarepaguá. Como de praxe, a "troca" da mercadoria pelo dinheiro rolava nos sítios ali de Vargem Grande e Pequena. Fui de carona em uma das vans camufladas de correios que ele usava pra entrar na área metropolitana da cidade sem chamar a atenção...
Fui tranquila, apesar de levar uma glock prateada na cintura só por precaução. A verdade é que quando entramos nas áreas dos sítios de alguma das "Vargem", eu fiquei tensa. Não por medo, mas porque aquele lugar representou uma virada de chave na minha vida... Foi num lugar por ali onde o Barbás tinha sido preso, comigo do lado... Esperava que dessa vez representasse a viradeira pro bem. Era um passo ousado que eu estava dando ali e eu tinha que fazer dar certo.
O motorista estacionou dentro de uma chácara super bonitinha dali, na nossa frente tinha um carro estacionado. De dentro do primeiro, saiu uma figura muito conhecida por mim... a pessoa por quem eu procurava. Quando o motorista da van foi cumprimentar ela, eu abri a porta e pulei do carro. Na mesma hora, um silêncio muito constrangedor se instalou. Eu não falei nada, só parei do lado de fora do carro e dei um tchauzinho pra minha aminimiga de longa data. Ela pareceu chocada. O homem que estava com ela pareceu chocado. O ambiente se dividiu em dois: os que não sabiam o que estava acontecendo e os que arregalaram os olhos.
Antes de me revelar, eu fiz uma contagem prévia de pessoal. Era ela, mais dois homens provavelmente armados e o motorista da minivan deles. Certo... 4 pessoas. Eu ia ter que confiar que a Larissa ia saber contornar a situação ou o tiro ia sair muito pela culatra.
— Trouxe sua namorada, parça? — Um dos homens que tavam com a Larissa ali brincou com o motorista, claramente não sabendo quem eu era. Que santo alívio...
Larissa mandou segurarem ali e veio pro meu lado, me pegando pelo braço e me levando pra trás da van. Ela parecia com raiva e completamente incrédula de que eu tava ali mesmo. Já sabia até o que ela ia começar dizendo...
— O que caralho tu tá fazendo aqui? Tá doida? — Brigou.
— Vim falar contigo.
— Comigo? — Ela perguntou em um tom agressivo, negando com a cabeça. — Tu perdeu a cabeça, só pode ser isso, mano. Vai tomar seus remédios, porra. — Continuou esbravejando pra mim e eu só fiquei ali encostada na van, esperando passar o surto.
— Posso falar agora? — Perguntei depois de um tempo. Ela cruzou os braços e eu fiz o mesmo. — Eu preciso de outro favor seu...
— O Pedro não é compatível com a sua filha, Marina. A gente já fez teste ano retrasado e simplesmente não é, eu sinto muito. Eu não posso ficar trazendo meu filho pra cá pra... — Ela começou falando, se referindo ao fato de que eu já tinha ligado pra ela chorando no passado, quando descobri a doença da Maria. Foi tipo... de madrugada e eu tava desesperada. Pedro, o garoto dela, era filho do Barbás também. Eu sabia que probabilidade de meio-irmãos serem compatíveis era quase nula, mas eu chorei tanto que acabei convencendo ela a fazer um teste nele. Sabia que a Larissa era muito sensível quando se tratava de crianças... Ela era do tipo 'mãezona'.
— Eu sei que não é. Dessa vez eu tô desesperada de novo e eu não tinha o seu número, então... — Comecei falando.
— O que mais você quer de mim, então?
— Eu quero conversar contigo, com calma. Tem como? — Perguntei. — É sobre a minha filha de novo.
— Cara... — Ela negou com a cabeça levando a mão na testa. — Eu não posso ser vista contigo, tá ligada? Se alguém falar pro Barbás que eu tô aqui conversando contigo...
— Então não seja, vamos conversar no sigilo. — Dei de ombros. — É urgente, eu não ia vir aqui se não fosse, porra.
— É fácil falar, cacete. Tu veio atrás de mim aqui na frente deles todos ali... — Ela apontou pra lá. — A sua sorte é que só um deles conhece você e logo esse é meu namorado. — Espiou alguma coisa por trás da van. — Me espera e não sai daí, tô falando sério.
Ela correu de volta pra lá e eu me esgueirei por trás do veículo pra ver o que tava acontecendo. Larissa chamou o tal do namorado pra perto do carro e conversou com ele a sós por um tempo, pra depois dar um selinho nele e entrar pra dentro do automóvel preto de onde ela tinha saído. Parou do meu lado, buzinando pra mim. Entrei no banco do carona e a mulher saiu quase cantando pneu dali. Quando estávamos só nós duas, o surto recomeçou...
Larissa foi reclamando o caminho todo até o Recreio dos Bandeirantes, onde eu soube que era uma área neutra pra nós. Ali, na orla do posto 11, tinha umas cafeterias famosas. Paramos em uma delas e entramos pra área comum, que tava cheia a rodo. Normal... Era hora de rush dos trabalhadores.
— Vai escolhendo uma mesa aí, o café fica por minha conta. — Falei. — Quer o que?
— Tanto faz, cara. — Ela continuava irritada, então, só deu as costas pra mim e subiu pro andar de cima. Fiquei na fila e pedi dois expressos pra gente. Café puro e simples, não tinha erro. Depois de uns minutos, peguei a bandeja com as xícaras e subi pra encontrar ela.
— Fala o que é de uma vez, Índia. Bora. — Mandou. — Deixei tudo lá na mão do Arllon e eu tenho que voltar antes que deem falta de mim na Rocinha.
— Eu... — Pigarrei. — O câncer da minha filha voltou e eu vi o Mandarim morrer dessa porra de doença não faz muito tempo... Então, é, eu tô bem desesperada agora e preciso garantir uma medula óssea compatível pra Maria Ísis.
— Cara, tu sabe que eu tenho consideração pela sua filha. Ela é irmã do meu Pedro e eu tenho respeito pela tua posição de mãe e pelas coisas que você faz por ela... — Começou. — Mas, na boa, eu não sou como eu posso te ajudar nessa. O Pedro não é compatível, não pode ser doador.
— Pois é, só me sobrou um doador possível agora. Como eu te disse antes, ela é a única filha que eu e o William tivemos, então, sem doadores de compatibilidade 100%. O que me resta são os 50% compatível, que são os pais. Eu tenho uma condição auto imune e não posso ser doadora, o que me sobra...
— O Barbás. — Ela completou, fazendo um careta de 'fodeu'. Quando Larica voltou a me olhar, tudo o que eu enxerguei em seu rosto foi pena... É...
— Exatamente. — Dei de ombros. — Me ajuda a chegar até ele.
— Nina... — Ela negou com a cabeça. — Não dá.
— Tem que dar, Larissa. — Falei com firmeza. Eu não tinha opção.
— Cara, espera um tempo, sei lá... Agora não dá. — Ela negou com a cabeça de novo e desviou o olhar.
— Larissa. — Chamei a atenção de volta pra mim, olhando no fundo dos olhos dela. Eu precisava que ela entendesse a gravidade da minha situação. — Eu não tenho tempo, a minha filha tem câncer.
— Eu sei, eu sei. — Ela passou a mão no rosto e me olhou. — Mas eu não sei o que fazer, mano. Tu conhece o Barbás, Nina. Ele leva as coisas pro coração, ele não escuta ninguém... Agora é ainda pior, acredita em mim.
— Eu imagino. — Me debrucei sobre a mesa. — Todos esses anos eu fiquei pensando sobre as coisas que ele tava achando sobre mim... Como tava a cabeça dela com tudo isso.
— Tá uma merda, cara, sendo bem sincera. Ele tá foda até pra mim aguentar e olha que eu larguei ele por muito menos... — Larissa bebeu seu café, não tirando os olhos de mim. — O Barbás nunca vai deixar ninguém falar isso, mas a real é que tu ainda afeta muito a cabeça daquele homem, Nina. Ele é maluco pra saber onde você tá, essa deve ser a coisa que ele mais quer na vida agora, então, mano, para de fazer essas doideras. Se alguém falar lá e ele desconfiar, só desconfiar, ele não vai deixar passar.
— Eu tenho meu jeito de me proteger. — Falei pra ela, dando de ombros. As palavras dela me causaram um frio no estômago. Eu me arrepiei inteira e senti um bolo se formar na minha garganta. Engoli em seco antes de continuar. — Não se preocupa comigo.
— Eu me preocupo com a Maria Ísis no meio disso. — Ela cruzou os braços. — Pra tu ter uma noção, ele ainda tá na dúvida se você tava grávida ou não no dia que vocês se separaram.
— Ele não acredita no eu falei? Não acredita que foi pai de novo?
— Não. — Ela deu de ombros. — Acho que ele só virou um homem desconfiado do mundo. Barbás só vai entender que é pai, quando olhar pra sua filha e fazer as contas.
— É, por isso eu já esperava. — Dei uma risadinha sem humor. — Eu preciso trabalhar isso. Vou entrar na quimioterapia com a Maria daqui a pouco e vamos colocar a doença em remissão de novo. Isso vai ganhar um tempo pra mim, claro, mas assim que o nível das células cancerosas baixarem, vamos ter a oportunidade de ouro do transplante. Até lá, o Barbás tem que ter entendido o recado.
— Vai ser difícil pra caralho, Nina. Tu tá pronta pra matar um dragão por dia?
— Até dois... — Dei de ombros.
— Então, eu tô do teu lado. Pela Maria. — Ela confirmou.
— Pela Maria. — Sorri. Ela era a minha aliada mais improvável do mundo. — Obrigada.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
