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— É... — Ela concordou com a cabeça. — Ele tem desenho.

— É tatuagem o nome do desenho na pele. Ta-tu-a-gem. — Falei pausadamente pra ela gravar.

— Mãe, será que ele faz 'tatagem' em mim? — Perguntou, passando a mãos nos braços animada. Eu tive que rir com a indagação e a carinha dela. Foi impagável. Ela ainda tava impressionada com as tatuagens dele. Imagina quando visse que ele tinha quase o corpo todo tatuado à essa altura do campeonato? A pele dele era um lugar e tanto pra se explorar...

— É tatuagem, Maria. Tatuagem. — Fiz ela repetir comigo até dizer certo. — E não, você não pode fazer uma tatuagem. Já disse que você é nova demais pra isso.

— Mas e se ele deixar? — Perguntou, realmente preocupada com aquilo.

— Ele não vai deixar, porque não pode. Mesmo se pudesse, eu já disse não. Quando você fizer uns 15 ou 16 anos, eu deixo, tá?

— Tá... — Ela se aconchegou contra mim, colando sua testa no meu vão entre meu pescoço e o ombro, e ficou quietinha. Nós duas ficamos. Ali, eu descobri que o cansaço não era só mental, meu físico também tava tremendamente prejudicado. Fiquei enroladinha com a minha bebê, cochilando ocasionalmente, enquanto minha mente trabalhava a mil. Eu não queria morrer e deixar minha filha sozinha, ela ainda precisava de mim. Não só dos meus bens material, ou da quantidade de dinheiro que eu podia deixar pra ela, de mim... a Maria precisava da mãe dela.

Como eu ia convencer aquela gente que pensava as coisas mais baixas de mim que eu não era um monstro, e sim a Nina que eles conheceram há tantos anos atrás? Eu ainda era aquela Nina?

[...]

Cheguei a apagar em meio aos meus pensamentos conturbados, mas não demorou muito. Teve uma hora que eu simplesmente não consegui mais permanecer na cama, minha garganta tava seca e minhas pernas doíam. Eu precisava dar uma esticada nelas, pegar uma fresca talvez. Assim, me afastei lentamente da Maria, cobrindo ela e garantindo que estaria numa posição confortável. Fui até a mochila que minha mãe me preparou e peguei alguma das minhas roupas, as quais ela teve a delicadeza de colocar numa bolsa pra mim. Eu nunca fiquei tão feliz de usar roupas minhas, que tinham o meu cheiro, meu gosto, que exalavam eu. Coloquei um vestido preto super levinho, todo bordado em crochê. Até cheirei ele... fiquei tão feliz de usar.

Desci as escadas, encontrando algumas luzes da sala acesas. Eu esperava que tivesse tudo apagado, assim eu podia sair pra parte de trás sem ninguém me ver. É... bem, as coisas não eram bem assim. No pé da escada, eu vi uma sombra sentada de maneira muito largada no sofá da sala, longe em seus pensamentos, com um copo largo nas mãos. William. Não Barbás, William. Me encostei na parede, observando ele à distância, sentindo meu coração se aquecer no peito. Daquele jeito, iluminado só pela luz amarela do bar, ele parecia o meu marido, o motivo pelo qual eu ainda usava o maldito anel que tava agarrado ao meu dedo. Rodei a aliança com a mão direita, sabendo que era o nome dele que estava escrito por dentro dela. Suspirei, percebendo como a melancolia ia lentamente se apoderando do meu peito e fazendo meus olhos começarem a arder no processo.

Ele tava tão lindo daquele jeito, distraído, pensativo... sozinho. Sem as coisas que faziam dele o Barbás, frente da Rocinha, ele era só o William que a minha mente ainda insistia em achar que era meu. O homem que, apesar de todos os meus defeitos, tinha sido minha alma gêmea. Agora estávamos os dois ali, cheio de frufrus, com as vidas feitas, avançando além do que achavam que poderíamos chegar... e não conseguíamos mais nos enxergar como antes. Eu e ele nos amamos pelo que nós éramos, quando não tínhamos nada além de uma guerra perdida pela frente... Quando não éramos ninguém. Só Marina e William.

— O que tu tá fazendo aí? — Uma voz rouca me chamou de volta pra realidade. Pisquei, olhando pra ele de olhos arregalados. Barbás me encarava com a expressão tranquila. Ele sequer saiu da posição que estava antes, só moveu a cabeça o suficiente para que pudesse me encarar pelo canto dos olhos.

— Hã?! — Perguntei, ainda meio perdida. Pega no flagra espionando? É...

— Tu tava me olhando? — Me questionou e eu não soube o que responder.

— É... eu tava só... — Apontei pra cozinha, mas não consegui verbalizar nada. Deixei a mão cair e bufei. — Eu tava, ué.

— E por quê?

— Não sei, eu só... passei e te vi. Depois eu ia... — Bufei e ele deu um gole no líquido do seu copo. — Você realmente mandou dar um tiro no cara da cozinha?

— Antes de me olhar desse jeito, se pergunta se eu tinha outra opção. — Ele respondeu de um jeito muito sereno, se levantando pra ir de novo à bancada do bar. Ele pegou a exata garrafa de whisky que eu tinha pegado mais cedo.

— Sempre tem opção... — Dei de ombros.

— Nem sempre. — Ele negou com a cabeça, derramando o líquido no seu copo. — A firma é a firma, as coisas são como são. Só funcionam porque são desse jeito...

— Mas a culpa foi minha. Você mais do que ninguém sabe como eu tenho talento pra essas coisas. — Tentei argumentar, apesar de saber que ele tava certo. — Eu ainda tô aqui inteira.

Ele riu e bebeu longamente o álcool que tinha acabado de ser servido.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora