— Óbvio que não, eu não tenho tempo pra isso. Vocês tavam falando alto, quando eu tava chegando, só... — Explicou de qualquer jeito. — Eu tenho desenho, ela gosta de desenho. Simples. — Ele era tão prático que chegava a me dar raiva... mas pelo menos ele tinha conseguido chamar a atenção dela pra si por conta própria, o que era muito bom pros dois.
— Sei...
— 1... 5... — Ela foi identificando os números na mão dele. — Mamãe, qual é esse aqui? — Me aproximei pra ver qual era a da contagem, apesar de já saber qual número vinha depois. Eu conhecia as tatuagens do Barbás e aquela era antiga.
— Você já sabe contar, Maria. Que número é esse? — Perguntei e ela se encolheu um pouquinho. Bem, ela não sabia.
— É... — Enrolou. — 3. — Chutou qualquer um que ela lembrava.
— Isso te parece um três, Maria? Não fica nem perto, minha filha. Conta até 10, vai. — Mandei e ela começou, fazendo de 1 à 10 quase 100%, eu ajudei ela uma vez ou outra, mas ela lembrava a contagem na cabeça. — Esse fica depois do 6, antes do 8. Qual? — Coloquei as duas mãos na cintura. Eu era meio ditadora na hora de ensinar coisas à ela... pelo menos funcionava e ela aprendia. Mais uma vez, ela deu uma enrolada, voltando a contar desde o início.
— É o 7, Maria. — Barbás deu cola pra ela.
— 7, mamãe. — Falou, fingindo que tinha lembrado. Uma atriz legítima.
— Não valeu. — Olhei feio pro Barbás. — É pra ela aprender. — Ele só ergueu as sobrancelhas e não falou nada. Certeza que não tinha dado a mínima pro que eu tinha falado. Inferno.
— 1... 5... 7. — Juntou todos eles por fim. — Que isso? — Olhei pro Barbás quase em pânico com o que ele ia falar pra menina.
— É o aniversário dele. — Cortei ele quando ia começar a falar. — 15 de julho, né?! — Induzi ele a concordar comigo. — 15 o dia, 7 o mês. Pronto.
— É... — Concordou, dando um sorrisinho de canto. — É meu aniversário. Foi meu primeiro rabisco. — Deu de ombros.
— Foi mesmo? — Dessa vez eu me interessei também, eu não sabia daquela informação.
— Foi, eu era novinho. Tinha uns 16 anos, por ai... fiz quando fui preso. — Contou e eu estranhei.
— Tá muito bonitinho pra ser de cadeia, viu? — Elogiei.
— Eu mandei refazerem depois, quando eu já tinha dinheiro. — Justificou.
— Preso onde, tio? — Perguntou a Maria, atentíssima à conversa.
— Preso em casa, que nem você ia ficar se saísse na chuva. Trancada dentro de um quarto, sem poder sair. — Aproveitei a oportunidade pra brigar com ela. — E isso é conversa de adulto, Ísis. Estamos vendo alguma coisa acontecer, e nem adianta me perguntar o que é. — Fiz uma referência ao filme favorito dela, A Bela e a Fera. A maior aflição da vida dela era saber o que diabos eles estavam vendo acontecer entre a fera e a Bela no filme. Ela, como o Zip, era jovem demais pra entender.
Era foda ir encobrindo as partes criminosas da minha vida e a do Barbás aos olhos dela. Ainda era cedo demais pra ela entender que os pais eram bandidos. Foda...
— Fica no quarto lá de cima com ela, eu mandei pra pintar de novo pra isso mesmo. — Falou.
— Tô bem aqui. — Fingi orgulho. Tá que era arrogância demais minha negar subir pra um quarto anos-luz melhor que o meu, mas eu tava ali pra jogar, né?!
— Não tô pedindo, eu tô mandando. E numa boa, ainda por cima. — Falou num tom tão suave que nem pareceu uma ordem, enquanto isso, ele ia apontando uns negócios na própria mão pra Maria. — Isso aqui é um leão, tá vendo? — Falou com ela, me ignorando. Inferno 2x. — Falei pra levar os bagulhos que tavam na sala lá pra cima já. — Interrompeu a conversa com a Maria pra falar comigo. — Junta o que tiver contigo ai ainda e sobe lá.
— Fui promovida, que legal. — Falei com ironia, entrando pra pegar as poucas mudas de roupa que eu fui acumulando com o tempo que eu tinha ali. A maior parte delas, eu devia pro Túlio.
Entramos todos juntos. A Maria veio agarrada na minha mão, enquanto ficava perto do Barbás, ouvindo e vendo ele mostrar os tais desenhos que tinha nas mãos. Subimos pro 2° andar pra ele mostrar o quarto pra gente, tinha até cheiro de tinta de tão recente que era. Parecia um quarto de hóspedes como qualquer outro, uma cama de casal que parecia super confortável e móveis neutros, em cores claras. A qualidade deles, por outro lado, é bem melhor que a do quarto lá embaixo. Ah... dignidade. Ô... Fiquei na emoção só de sentir o colchão de molas e o blindex do banheiro que fazia dali uma suíte. O chuveiro grande... Ô... Tô nem ai se não era por mim que ele tava me dando aquele presente, eu ia é aproveitar muito bem.
Maria saiu explorando tudo, abrindo as portas do guarda-roupas e indo perto da janela, enquanto eu também dava um geral no quarto.
— Deixa as coisas ai que eu arrumo depois. — Falei mais pra mim mesmo, quando vi as duas mochilas que minha mãe tinha pego com coisas da Maria e algumas minhas também. — Barbás, tu vai sair hoje ainda? — Perguntei. Era final da tarde e, pro que eu planejava, eu precisava de tempo.
— Vou agora. — Contou e eu dei uma murchada. Pro que eu queria fazer, precisava de tempo. — Volto mais a noite, tenho coisa pra resolver. — Ele falou, já dando as costas pra nós duas.
Ele deu um tchauzinho pra Maria Ísis e deu as costas pra nós duas. Agradeci mentalmente por ele ter relevado a cagada que eu fiz mais cedo... bom, isso era o que eu imaginava, né?! Peguei minha filha pela mão, pra gente descer de volta pra sala. Notei que ela estava estranhando a casa, o ambiente... Ela não tava 100% ali, não conseguia se voltar e ser a espoleta que ela era. Barbás deu um importante passo na direção dela, mas eu ainda a sentia olhando pra ele de relance com algo como desconfiança, eu não sabia bem o que era.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
