O 2° dia amanheceu e eu tava afundado no meu escritório, batendo sozinho ponto a ponto dos cadernos de contabilidade. Geralmente quem fazia aquele trabalho comigo era a Shirley, mas eu queria ocupar minha mente na madrugada, pra não ficar pensando em merda. Os seguranças vinham aqui de tempo em tempo pedir pra levar comida lá e água pro porão e, depois de algumas vezes, eu comecei a responder que sim no automático. Acabei percebendo, talvez tarde demais, que a frequência com que levavam coisas pra ela era muito mais alta que o normal... e eu já até tava imaginando quem podia estar dando a ordem pra isso.
— É você quem tá mandando coisa pra ela lá toda hora? — Perguntei pro Túlio assim que ele bateu na porta pela primeira vez.
— Só deixando a vida dela mais fácil, Barbás. — Confessou, deixando o fuzil na porta e sentando na minha frente. — Se ela tiver que morrer, beleza. A gente sabe que o que a gente faz, a gente paga, mas não tem porque ficar esculachando a mina, ela passou pela nossa vida, po.
Larguei a caneta na mesa e me encostei na cadeira, olhando pra ele em silêncio. Eu tava cansado, me sentindo esgotado por causa daquela história. Geralmente ele fazer qualquer coisa sem minha ordem expressa ia dar num problema gigante entre a gente, mas agora eu só tava exausto demais pra brigar. A verdade é que eu quase queria alguém pra ficar ali e lidar com a Marina pra mim.
— O que tu vai fazer com ela? — Perguntou um tempo depois.
— Não sei... — Confessei. — Achei que ia ser mais fácil... que nem foi com o Parma. — Relembrei o filho da puta que tinha me botado na cadeia.
— Ela não é o Parma, parceiro. — Disse, olhando ao redor.
— Se fosse, não ia mais estar aqui entre a gente. — Procurei por cigarro nas minhas gavetas, encontrando só maços vazios. Tava foda, eu tava fumando demais... — E eu ia estar em casa agora.
— E se ela for mãe da tua filha mesmo... que nem ela disse que era? — Perguntou. — Eu sei que tu não acredita nela, mas po, se tá te batendo a duvida, alguma coisa no que ela disse mexeu contigo.
— Não é só o que ela disse... — Dei de ombros. — Me deram a entender que ela tava falando a verdade, pelo menos sobre a menina e, porra, eu acho que é bem possível mermo. Isso tá me tirando o sono, irmão. — Bati a mão no peito, sobre a guia, pra ele entender do que eu tava falando.
— Então vai com calma. Vê isso direito, com tranquilidade, pra não fazer merda e se arrepender depois. — Ele falou, já levantando. — Só lembra que tu não pode deixar ela lá embaixo pra sempre, né?
— Vou dar meu jeito. — Concordei com a cabeça, vendo ele ir pra porta, pegar a arma e sair. Eu precisava dormir e precisava que minha mente me desse paz também, mas tava foda. Era muito cedo ainda, 6h e tanta da manhã e eu já tava moído. Em algum momento, eu apaguei na minha poltrona e perdi tudo o que eu tinha que fazer até as 12h. Isso nunca me aconteceu, eu era muito disciplinado com minhas missões... Nada na minha vida era desregrado daquele jeito... Fiquei o resto do dia bolado com aquilo.
[...]
Cumprimentei os parceiros e passei as últimas instruções sobre o dia de amanhã pra Larissa e pro Túlio. Tinha carregamento pra chegar, então, tinha toda uma programação pra receber a droga e endolar. No dia seguinte, o lance era cedo, tinha que resolver tudo antes pra não deixar atrasar. Quando fechou tudo, fui dar um rolé pela favela pra esfriar um pouco a mente antes de ir pra casa... não consegui, pra variar. Fui pra casa inquieto, enrolei um baseado pra relaxar, fumei, andei a casa inteira e ainda sim eu sentia alguma coisa me incomodando. No meio do meu banho, eu só me perguntava que porra era aquela me comendo por dentro.
Coloquei um moletom, peguei minha arma e saí, sentindo o ar gelado da rua me deixar quase desorientado. Já era mais de 23h quando peguei minha moto e segui quase no automático de volta pro escritório. A segurança da madrugada da Rua 1 era bem menor, então, passei rápido sem avisar ninguém, parando em frente do lugar.
— Esqueceu alguma coisa, patrão? — Quis saber um moleque novo com o mão na empunhadura do fuzil.
— Vou descer aqui. — Avisei, passando reto e abrindo o trinco. Foi meio no automático que eu abri a porta e desci os primeiro degraus pra olhar pra ela, que tava encolhida num canto. Marina parecia dormir já que não me mexeu com o barulho da porta. Parecia cansada, meio abatida, mas a expressão seguia serena como a de um bebê.
Sentei na escada, pegando um cigarro e levando na boca. Eu sabia que eu tinha que parar de fumar, tava ficando foda o tempo todo, mas não tinha jeito. Se eu ficava nervoso, eu tava apelando pra nicotina e, porra, ultimamente eu tava o tempo todo precisando disso. Fiquei ali, alheio, observando ela dormir numa posição que parecia puta desconfortável. Isso que era o mais pica. Enquanto eu tava ali, em claro a noite inteira, mesmo tempo uma puta cama confortável pra deitar, ela tava lá, sentada de qualquer jeito e curtindo um sono tranquilo. Por que eu não tinha aquilo? Por que era sempre essa filha da puta a roubar o meu descanso?
Senti um desejo quase infantil e ir lá e acordar ela, só pra que ela sentisse o mesmo castigo que eu... mas não fiz. Fiquei ali sentando olhando pra ela.
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Coração em Guerra
Romantikaㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
