— Não, não, não, olha... Não me olha assim, tá? Eu só quero ir ver minha filha, não vou fazer nada demais, eu juro. — Tentei tranquilizar ele, mas sinceramente? Eu duvidava que tinha funcionava. — Eu sou mãe e eu preciso saber como tá minha menina, garantir a segurança dela. Eu volto depois... E não grita. — Ameacei sutilmente ele, balançando a arma perfeitamente posicionada entre as minhas duas mãos. — Não faz barulho, eu tô pedindo só... Não quero machucar você, tá?
Fui passando pelo corredor de volta pra grande área de cozinha. Nessa hora a Madalena voltou e eu achei que ela fosse cair dura quando viu a arma na minha mão. Repeti as coisas que eu disse ao homem pra ela, que foi ficando cada vez mais roxa. Não ousei apontar a arma pra ela, por consideração e principalmente gratidão. Madalena tinha feito muito por mim, eu não ia desrespeitar ela daquela maneira, não... em hipótese alguma. Além disso, ela era uma senhora, aquilo não era certo.
Saí pra sala, atravessando ela apressada com a pistola na mão. Eu já tava preparada pra tentar sair no xiu, ou ter que ameaçar os seguranças da frente, pra mim não importava o jeito. Foi quando uma silhueta passou diante dos meus olhos e eu demorei a reconhecer quem era. Na entrada da casa, voltando do que tinha ido fazer na rua, estava o Barbás, me olhando surpresa. Caralho, caralho, caralho... Engoli em seco, me forçando a ser forte pra não deixar ele me dobrar ali.
Apontei a arma pra ele, sentindo o meu lábio inferior tremer em determinação. Era a primeira vez, desde que eu me lembrava, que eu ameaçava deliberadamente a vida dele daquele jeito. Em outras épocas, eu nunca sequer cogitaria fazer algo do tipo... mesmo ali, quando eu o fiz, meu coração se encheu de angústia e melancolia. Me senti culpada e infeliz. Por que as coisas tinham que ser assim tão difíceis pra mim?
— Que que você pensa que tá fazendo? — Perguntou, olhando fixamente pra minha pistola, pra deixou rolar os seus olhos pra mim. Estreitando suas pálpebras, senti a maneira como ele me fuzilava com as íris escuras. Nelas, havia alguma perplexidade inexplicável... confusão e raiva, especialmente a última, muito bem direcionada à mim.
— Eu quero ver minha filha, ela precisa de mim, Barbás. Eu não vou aceitar um não como resposta. Não vou. — Engoli em seco, tentando manter a firmeza na voz e nos dedos, que ameaçadoramente deslizaram para o gatilho. Dentro de mim, um turbilhão de sentimentos se amontoavam e vinham como ondas, fazendo as primeiras lágrimas rolarem pelo meu rosto sem que eu pudesse fazer nada pra conter.
Ele andou lentamente na minha direção, sob a mira da pistola, me testando... me desafiando a atirar nele. Destravei a arma com arma e comprimi os lábios, com o dedo no gatilho. Eu sabia que se deixasse que o Barbás se aproximasse demais, ele ia me desarmar. Se eu não conseguisse parar ele, ele ia me parar. Meu corpo todo me alertou que era questão de sobrevivência e eu senti os meus dedos gelarem. Eu deveria ter apertado o gatilho. Devia... mas não consegui. Eu senti vontade de me matar por ser tão fraca perto dele.
— Se tu vai apontar essa porra pra mim, é bom atirar nessa porra. — Barbás ficou puto, óbvio.
— Me deixa sair... — Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria, mas firme da mesma forma.
— E ai, Marina... Qual vai ser? — Ele meteu a mão no cano da minha pistola e eu me assustei, tirei até o dedo da alça, senti o aperto na empunhadura afrouxar, apesar de não ter largado a arma em momento nenhum. Ao contrário do que eu achei que faria, William colocou a arma contra a própria testa e me sorriu. — Bora. — Desafiou.
Eu vacilei, pisquei, passando o dedo pela alça e a alavanca do gatilho. A umidade que se acumulava nos meus olhos me incomodou e eu passei a mão livre pra limpar.
— Bora! — Gritou comigo e eu fiquei puta. Com a força do meu corpo, empurrei ele pra longe de mim, voltando a apontar a arma pra cabeça dele, que riu. Ele já tinha entendido que eu tinha falhado... dentro de mim, eu não consegui... Dentro de mim, tantas lembranças borbulhavam, tantos sentimentos que viveram por tanto tempo dentro de mim, que já eram parte do meu eu. Ainda existia alguma coisa ali, bem ali dentro de mim, que batia por ele. Eu me senti horrível por ter aquela percepção, finalmente. Se eu não conseguia matar ele pra ter a chance de correr até a minha filha, mesmo com o frenesi que eu sentia nas veias... Porra, isso significava muita coisa. — Fraca.
Na minha distração, ele bateu a mão na pistola, jogando minha mão pro lado e vindo pra cima de mim. Com o antebraço no meu pescoço, ele me imprensou na parede, querendo me imobilizar. Ali, a raiva e o rancor que eu vi nos seus olhos me consumiram também. Bati a parte debaixo da arma na abdômen dele, dando uma joelhada na sua barriga. Então, eu não consegui mais parar. Empurrei ele de novo, aproveitando o momento de desestabilização dele. Eu queria revidar tudo o que ele tinha me feito passar até ali, mas principalmente, eu queria revidar por ele nunca ter me entendido em absolutamente nada... Por não me entender especialmente naquele momento, por não entender o meu sentimento de mãe que tava gritando dentro dos meus ouvidos. Era mais forte que eu. Dei tapas de mão aberta no peito dele, não pra machucar, mas pra desabafar, pra punir ele por um sentimento que eu não podia controlar, principalmente, punir ele por ter me feito fraquejar... Eu queria matar ele, queria acabar com ele, mas eu não conseguia e isso me enfurecia até o último fio de cabelo.
Ele me segurou pelos braços, tamanho o meu descontrole e passou por trás de mim num movimento extremamente rápido, passando meus braços para as minhas costas e levando nós dois até o chão, terminando por me imobilizar de novo.
— Eu que fui a porra do seu professor. Foi eu quem te ensinou tudo o que você sabe... — Murmurou próximo do meu ouvido. — Tu acha mesmo que... — Ele afrouxou o aperto de novo e eu não entendi o motivo, mas não perdi tempo. Soltei meus braços e cotovelei sua costela, rolando pra sair do seu cerco e pra chegar mais perto da minha arma. Peguei a pistola de novo, apontando pro rosto dele de novo, enquanto sentia toda a adrenalina me varrer o corpo. Na mesma hora, ele também tirou a arma dele da cintura e apontou pra minha cara também.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
