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— Eu quero o voto de minerva. — Ele falou um tempo depois. Virei meu corpo na direção dele, franzindo a testa. O voto de minerva era normalmente um voto de desempate, ou um voto de resolução. Só que... não tinha como aquilo empatar. Mais da metade dos votos já eram negativos. — Disse num tom seríssimo. — Alguém contra? — Ele perguntou com a cara fechada. Ninguém falou um pio. — Então prossegue ai, irmão. 

— Vou votar pela vida da Índia por causa da menininha dela. — Falou o que fora interrompido pelo Barbás. 

— Sou contra deixar ela sair por aí, a mensagem que isso vai passar pros pela-saco dessa favela... — O seguinte votou como eu já esperava. 

— A Marina estudou comigo. — A única mulher, além da Larissa, foi quem falou por último. — Eu fiquei puta pelo que ela fez, mas eu nunca entendi o que tinha rolado de verdade. Eu conheci ela na escola quando a gente era pirralhona mesmo, desde aquela época eu sempre achei ela pelo menos uma pessoa honesta. Não sei se ela é capaz ou não de vir aqui e mentir na nossa cara, mas se for, ela vai se entender com Deus. Vou dar meu voto a favor dela porque eu não acho que ela seja tão filha da puta quanto tão pintando. — Sorri amargamente, me lembrando o nome dela. Yasmin. Nós tínhamos sido amiguinhas na pré-adolescência e eu sequer me recordava disso. Ela tinha um sorriso bonito pra mim e eu não entendia o motivo. 

De qualquer maneira, os votos contra mim já tinham passado os a favor. Eu me surpreendi que alguém, além da Larissa, do Russo e do TK tivessem votado pela minha vida. Terminei que percebendo que, apesar de tudo, a Rocinha ainda fazia profundamente parte de mim... e eu fazia parte da Rocinha. Aquelas pessoas não me eram desconhecidas, algumas tinham crescido comigo, outras tinham estado do meu lado, arriscando suas vidas pelo mesmo ideal que eu. Fui pra guerra com todos os presentes. 

Isso... isso era algo forte demais. 

Virei pro Barbás, querendo ouvir o voto dele. Sabia que não faria diferença, afinal, já eram 10 votos contra e 8 a favor. Pelos 18 votantes, eu já estava condenada. Mesmo assim, eu quis ouvir o do William. Ainda que ele dissesse que não me queria morta, hoje eu tinha visto que o seu coração seguia amargo como fel. Me aproximei alguns passos dele. 

— Nada do que você diga vai mudar o que já está decidido, mas pelo menos, você vai poder sentir como se tivesse tido a sua vingança contra mim. Eu sei que há anos você tem sonhado com isso... — Sussurrei pra ele, que me ouviu com a mandíbula trancada. Seus olhos me encarando como se quisessem ver a minha alma. 

Vi o Barbás suspirar profundamente, enquanto o encarava em expectativa. Eu esperava o seu não e espera que isso trouxesse algum conforto pra ele, pra minimizar o sofrimento que eu tinha causado pra ele. 

— Meu voto é último como eu falei com vocês, mas o meu vai valer por dois. 1 porque eu tô aqui como envolvido na história e 1 porque quem se fodeu mais nessa história toda foi eu, que peguei 3 anos de cadeia, por causa essa porra. É o justo. — Ele disse, olhando pra cada um dos presentes. Ninguém se incomodou em negar, ou teve coragem pra isso. De um jeito ou de outro, o jogo já estava jogado na mesa. 

Ouvi alguns sorrisos, algumas risadas... As pessoas me davam como carta fora do baralho. Afinal, a maioria estava contra mim e o Barbás... bom, o Barbás era quem mais tinha motivos para me querer morta. Todos eles deviam estar cansados de saber que ele mandava pessoas atrás de mim e do ódio ardente que ele sentia pelo que tinha acontecido com ele.

— E eu voto a favor da Índia. — Disse com firmeza, desviando o olhar na minha direção. O falatório cessou quando ela falou e eu vi muitas cabeças se viraram na sua direção. Espera, o quê? Surpresa e silêncio pairaram no ar. Eu perdi o fôlego, sentindo minha cabeça girar. 

— Calma, e agora? — A Larissa foi a primeira a falar, levantando da cadeira. Pelas minhas contas agora tem 10 conta, 10 a favor. 

— Agora, Larica... — Barbás falou no meio de uma respiração profunda. — Agora que como frente dessa favela, eu também sou o juiz. Como juiz, eu tenho o voto de minerva, como eu falei antes e que os irmão já concordaram. Eu tenho o direito de ter a palavra final sobre a vida dela. — Falou com uma confiança implícita na sua voz grave. 

Larissa sorriu pra ele, negando com a cabeça. Ela já tinha entendido tudo. Lentamente a percepção do que ele faria atingiu a todos, até a mim. Eu esqueci como respirar, sentindo que meu coração só batia ainda porque era totalmente involuntário. Silêncio sepulcral, apenas esperando pelo que viria. Expressões aliviadas se misturaram a expressões neutras e a expressões enraivecidas. Todas passando, primeiramente, pela surpresa. 

— Barbás... — Sussurrei. 

— E o meu voto pra desempatar é o mermo de antes. Eu voto pela vida da Índia. — Disse em alto e bom tom. — E desse jeito aí, ela não deve mais nada pra nós e essa questão tá resolvida. 

Em segundos, um estalo fez tudo mudar e meus ouvidos zumbir. Me senti tonta e, lentamente, me ajoelhei no chão. Leve. Eu me senti leve, por fim. Fazia tanto tempo que eu não sabia o que era me sentir assim... tão... leve. Leve como um passarinho, voando depois de passar tempo demais numa gaiola. Minhas mãos foram de encontro ao chão e eu escondi meu rosto nelas. Meu Deus... Senhor do céu, eu não sabia como reagir, eu tava mole, tava confusa, finalmente deixando toda a força que me manteve de pé até ali escorrer como água pelo chão. 

Barbás parou bem na minha frente e eu vi o tecido do seu tênis bem na frente dos meus olhos. Me levantei na mesma lentidão, erguendo meu olhar para ele, imaginando que aquilo, na verdade, era um sonho e aquele era o meu William. 

— Tu tá livre, Marina. — Disse por fim, com seus olhos castanhos mais profundos que nunca. 




________P.S: IRMÃS, EU TÔ CHORANDO HORRORES AQUI________

________P.S 2: Não, nós ainda não acabamos >:)________

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora