— Mas por que ele não vai estar lá? — Perguntou o Hélio. Dei de ombros, não querendo compartilhar a resposta. Ele não ia estar lá porque confiança era um problema entre nós. Fui fumando loucamente, enquanto pensava.
— É foda. — Respondi só isso. — Po, será que tu pode colocar uma música aí na sua caixinha? — Perguntei, vendo a JBLzinha na mão dele.
— Só pedir.
— Sorriso Maroto, a música mais de corno que tu puder. Confio no seu bom gosto. — Falei e porra, não demorou pra vir o rajadão. Ele largou logo o pot-pourri de Em Suas Mãos, Disfarça e Fica Combinado Assim. Logo no primeiro minuto eu quase me matei... Cruzei os braços sobre a mesa e deitei minha cabeça neles, levantando as vezes só pra fumar o baseado. Quando ele acabou e eu tive que parar de levantar, eu fiquei naquela posição tanto tempo, que o sono veio cavalando. Eu tava tão cansada, a maconha tinha dado uma ondinha tão humilde junto com o whisky, que eu só apaguei.
[...]
Senti uma mão tocando no meu ombro. Ignorei. Eu tava cansada, doido, fala sério. Quem quer que fosse, que me deixasse em paz. A pessoa não desistiu e começou a me chacoalhar com força Abri os olhos muito puta e a claridade da manhã quase me cegou. Fechei na hora as palpebras e tampei o rosto com a mão.
— Que que é, hein cacete? — Perguntei, mal humorada, finalmente abrindo os olhos pra ver quem era. Pra minha surpresa, o Hélio e toda a galera ainda tava ali e nas minhas costas, ele. É. Ele. E sua ruma de seguranças atrás. Puta que pariu.
Dei um pulo no lugar e levantei, arregalando os olhos.
— Que horas são? — Perguntei, engolindo em seco. Senti o medo me varrer e uma dor de cabeça chata brotar dentro do meu crânio. — Meu Deus.
— Acabou de dar 6h. A gente tava terminando aqui e esperando tu acordar pra ir ganhar. — Falou o HK e olhou pro Barbás. Vi um lampejo de medo percorrer seu rosto quando ele o encarou de volta. A expressão do William tava mais carrancuda que o normal, embaixo dos seus olhos umas olheiras apareciam bem marcadas. Ele tava, sim, bem assustador. Sem dormir e puto da vida, tava o melhor homem do mundo.
— Valeu aí pela moral de olhar por essa criança aí. — Falou, estendendo a mão pro Hélio apertar. Ele piscou e hesitou um segundo só, antes de correr todo feliz pra apertar a mão dele. — Tu é vapor aqui da Verde, né?
— É sim, patrão... — Reconhecimento. Distingui na sua felicidade aquele sentimento. — É... Já que tu vai levar ela aí, eu vou me adiantando. — Ele ficou só mais um tempo pra recolher as coisas antes de sair, sendo seguido de perto pelos seus clientes ali. Claro, ninguém queria ficar perto do Barbás com a cara de cu do tamanho do mundo que ele tava... nem eu queria.
Passei a mão nos meus cabelos e depois no rosto. Minha boca tava seca e eu tava com dor de cabeça. Precisava de um banho e uma cama urgente, não de uma briga feia com o William.
— Onde é que você tava? — Perguntou, cruzando os braços e eu queria só virar as coisas e sair sem responder. Se eu fizesse isso, porém, eu ia desmoralizar ele na frente dos homens dele... e aí a coisa ia ficar preta pra mim.
— Aqui, né? Não acredito que eu dormi. — Eu não tava muito melhor que aquele tiozinhos bêbados que caiam fodidos na rua. Eu só tava um pouco melhor vestida que eles, na verdade. — Seu guarda eu não sou vagabundo, eu não sou delinquente, eu sou um cara carente. Eu dormi na praçaaaaaa... — Cantei, tentando quebrar aquela aura negra dele com humor. Não que eu fosse obter sucesso, porque provavelmente só ia irritar ele, mas pelo menos eu ia mudar de assunto. — PENSANDO NELEEEEEEEE!
— Nina, eu não tô brincando. — Ele veio pra perto e pegou no meu braço, não com força o suficiente pra me machucar. Achei um toque até que bem delicado pros padrões dele. — Onde tu foi antes daqui?
Mas era claro que ele saberia que eu saí... ele tinha todos os x9 dessa favela na mão dele. Olheiro até o no olho do cu.
— Fui ver meu tio. — Confessei. Não queria mentir pra ele, ainda que eu não tivesse coragem de falar toda a verdade ali na face dele, há essa hora da manhã. — Precisava ver como tá as coisas lá pra baixo. — E por lá pra baixo, eu queria dizer Rio Comprido, mas eu quis deixar subentendido que era o Paraguai. Era o que ele pensaria, logicamente, pelo que já sabia. — E depois fiquei aqui. Bebi um pouco e fumei com eles.
— Tô vendo nessa porra, tu é a porra de uma criança. — Respondeu com um toque extra de agressividade na voz. Eu via como ele tava fazendo um esforço sobre-humano pra não explodir e me esculachar horrores ali no meio daquela praça.
— Criança não, tá bom? Se eu tivesse trabalho ainda, eu ia me afundar nele que nem tu tá fazendo pra esquecer meus problemas, mas eu não tenho... e tu me largou. Eu precisei fugir também, respirar um ar que não fosse da Rocinha.
— É, aí tu dorme largada ai na praça com um monte de homem em volta, né? Pica demais. Se não fosse aqui, debaixo dos olhos de quem me conhece, olha a porra do risco que tu ia tá correndo... e se fizeram alguma coisa contigo. E não é só porque tu é mulher não, é porque tu é tu, caralho. — Ele se aproximou pra falar em um tom mais baixo comigo, mas não menos ameaçador.
— Eu não ia dar esse mole, né? Eu me sinto segura aqui, porra, por isso eu acabei apagando. Tu acha que eu sou quem, também? Se liga, tá me estranhando? — Me senti indignada por ele achar que eu não sabia cuidar do meu próprio nariz. Ele me subestimava demais as vezes.
— Tu vai me explicar essa história aí direitinho, agora vem, caralho. — E foi tomando a frente, me puxando pelo braço. Me debati contra ele, me desvencilhando das suas mãos. Seu olhar pra mim foi assassino. A paciência dele tava muito no fim. Resolvi colaborar, apesar de estar achando um pouco de graça em tudo aquilo.
— Eu caminhei sozinha pela rua. Falei com as estrelas e com aaLuaaaa... — Comecei a caminhar bem garanhona até as motos deles, enquanto cantava Dormi na Praça do Bruno e Marrone. Era um clássico, todo mundo conhecia aquele sertanejo de jeca tatu. Estranhamente, a música era perfeitamente descritiva daquele momento esquisito. As motos estavam paradas no início da praça. Sabia que era pra lá que ele queria me levar. Ele veio seguindo atrás, muito bolado e eu provocando com a cantoria. — Deitei no banco da praça, tentando te esqueceeeeeer. Adormeci e sonhei com vocêêêêêê...
Olhei pra ele, dando uma risadinha. Arranquei um sorrisinho muito discreto de canto dele, que logo se perdeu em meio a sua carranca novamente. Ah... um dia o amor por esse homem ainda ia me matar.
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Coração em Guerra
Romanceㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
