— Era tu e teu paizinho, vai... — Ele seguia debochando.
— Não, era eu e minha filha. Metade minha, metade tua. — Falei, atraindo sua atenção de volta. — Eu te falei naquela noite, eu tava grávida.
Ele negou com a cabeça com força, com uma expressão descrente no rosto, como se eu tivesse falando algo absurdo.
— Você conseguiu me fazer não reagir naquela noite, porque disse que tava grávida. Show de bola, conseguiu o que queria, mas não vem sustentar essa porra aqui pra mim. — Disse, levantando da cadeira. — Teu irmão me disse que nunca conheceu criança nenhuma.
Aquilo era mentira disso e eu sabia que, pro bem dele, eu não podia colocar sua palavra em cheque.
— É porque não conhece mesmo. Minha mãe nunca deixou ele viajar pra nos ver, tá bem claro pra mim o porquê. — Usei das informações que eu já sabia pra fomentar a mentira dele. — Mas eu não preciso mentir, eu tenho como provar que minha filha existe e é tua. Faz exame, se tu tiver afim.
Eu podia envolver o Wallace e a Dalila, que eram minhas testemunhas, mas eu simplesmente não queria que eles ficassem no meio daquela merda.
Ele parou por um momento e eu soube que, talvez, tinha atingido algum dos meus objetivos. Claro que todas as minhas esperanças foram jogadas por terra no segundo seguinte.
— Eu não acredito em você. — Falou um tempo depois, subindo as sobrancelhas e negando com a cabeça. — Você não vai me enrolar de novo, não vai ganhar tempo em cima de mim. O que tu acha? Que vai vim alguém aqui te resgatar?
— Eu não tô mentindo. Nós temos uma filha. — Elevei o tom da minha voz e ele continuou negando com a cabeça. Um lampejo de desespero, desesperança e tristeza me transpassou como um raio, mas não deixei que aquilo me abalasse. Ali era uma hora crítica.
— Eu não acredito em você, porra. — Ele falou mais alto ainda, batendo a mão no encosto da cadeira, tombando ela no chão. O barulho me fez pular no lugar e olhar horrorizada pra ele. Todo mundo se assustou, não sabia se com o baque da madeira contra o chão de concreto ou se pelo descontrole momentâneo de alguém que gostava de parecer inabalável.
Coloquei as duas mãos nos bolsos, tentando achar meu celular, mas ele já tinha sido tirado de mim sem que eu tivesse reparado. Como eu ia provar a existência da minha filha, meu Deus?! Eu só pedi ao Senhor uma luz na minha vida. Eu precisava que aquele homem entendesse...
— Meu Deus do céu, então me dá meu celular. Cadê ele? — Me exaltei, mesmo sabendo que não deveria perder a serenidade. — Lá tem milhões de fotos da Maria, eu posso passar horas te mostrando ela de todos os ângulos que você quiser. Ai você avalia...
Ele, que estava de lado, paralisou no lugar, virando pra olhar pra mim como se eu tivesse socado a cara dele. Ali... ali sim eu vi alguma coisa. Eu não soube identificar a princípio o que era...
— Teu celular lá no fundo do valão já, Índia. Ninguém quer correr risco de rastrearem tua posição aqui na favela e... — Foi o Túlio que falou, diante da falta de resposta do Barbás.
— Sai todo mundo. — E quando ele respondeu, simplesmente cortou o TK com uma ordem que ninguém esperava. Nem eu... — Vai, sai todo mundo agora.
Eles foram pra fora sem contestar, exceto meu irmão, que pareceu estacado no lugar. Ele não se moveu e eu vi o Barbás virar pra ele com raiva.
— Tu não ouviu não, porra? Sai agora. Agora. — Mandou, olhando com raiva. Túlio veio e pegou meu irmão pelo braço, puxando ele escada acima. Quando a porta fechou, eu olhei pro Barbás com alguma preocupação no olhar. Era por aquilo que eu tava esperando... ele de verdade. — O que foi que tu falou ali?
— Falei muita coisa. — Fiquei de pé, mas ainda encostada na parede.
— O nome que tu falou, porra. Qual o nome? Repete. — Foi incisivo. Eu vi que ele tava começando a ficar nervoso. No seu rosto, eu via as suas emoções...
— Maria, cacete. É o nome da minha filha. Maria Ísis. — Falei e mais uma vez, a expressão dele como foi como se tivesse tomado um soco no estômago. Ele parou e ficou de costas pra mim, apoiando um das mãos na parede como se quisesse arrancar o concreto dali com as mãos.
— Onde você ouviu isso? — Quase me cortou, virando o rosto pra me olhar. — Esse nome.
— Onde eu ouvi? — Não entendi... — Cara, é o nome da minha filha, já disse. Eu escuto ele o tempo todo...
— Você tem falado com a Dalila não tem? — Perguntou, se aproximando subitamente. Eu me assustei e me afastei alguns passos pra trás.
— Não, eu até troquei o último número que ela tinha. Faz meses que eu não ligo pra ela. — Respondi, vendo ele passar o dedo indicador e o polegar nos olhos. — Qual o problema do nome?
— Tem alguma coisa que eu não tô enxergando. — Ele falou mais pra si mesmo. — O que que você tá tramando nessa porra? — Perguntou pra mim, virando o olhar pra mim. Raiva cintilante. Ele se aproximou e eu continuei fugindo discretamente, até que ele agarrou meu braço. Eu segurei a mão dele com as minhas duas e empurrei pra longe, me afastando de novo.
— Que tramando o quê, cacete?! — Reclamei, achando que ele tinha ficado maluco de vez. Barbás era pragmático, ele acreditava no que os olhos dele enxergavam. O que eu via ali era raiva por algo não concreto? Que trama? Que porra? Que paranoia do caralho.
— Me responde uma coisa aqui. — Eu fui pra um canto e ele acabou me cercando. Eu quis sair por um dos lados, mas ele colocou a mão na minha barriga e me empurrou de novo pra parede, ficando na minha frente. — E me responde olhando no olho nessa porra, porque aqui não tem moleque pra tu brincar não. Para de fugir, sua puta do caralho.
— Puta é o cacete... — Me irritei e no mesmo momento eu me repreendi mentalmente. Serenidade, Marina, Serenidade.
— Tu veio fazer o que aqui nesse caralho? — Ele perguntou com um tom agressivo. — Muito fácil, de primeira. Sabendo o que tu sabe, tu veio aqui como se dar como se fosse um presente pra mim por quê? Se tu podia ter pegado seu irmão e vazado nessa porra? Alguma coisa tem.
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Coração em Guerra
Storie d'Amoreㅤㅤ"Sou a morte, o diabo, o capeta, a careta que te assombra quando fecha o olho. Sou seu colete à prova de balas, seu ouvido à prova de falas... Eu vou tomar nosso mundo de volta." Djonga ㅤㅤㅤHá 5 anos ela foi acusada de trair o homem a quem ela amav...
