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Revirei as que tinha coisas de tecido, tipo mais roupas, lençóis e coisas do tipo, dentro da cama mesmo, sem sequer tirar do lugar onde elas estavam. Se eu fosse vasculhar minuciosamente cada uma delas, eu não ia terminar hoje. Eu só pegava aquelas que eu via que tinha alguma coisa no fundo ou entre os panos. Se não, eu ia reto pra próxima. Eu queria de verdade era as que tinham um monte de bagulho variado, tipo coisas de cozinha e o conteúdo da milhares de gavetas do nosso guarda-roupas da época.

— Vai me ajudar não? — Perguntei depois de um tempo, notando como eu tava sozinha ali. Virei pra trás pra ver o Barbás, sentado numa poltrona, desmontando calmamente seu fuzil pra passar óleo nas peças. Tranquilo como um passarinho numa noite de verão.

— Tô ocupado, mas continua aí. Tu não quer achar as alianças? Eu tenho certeza que tá aí. — Respondeu, nem olhando pra mim. Estreitei os olhos pra ele. Resolvi não reclamar, eu que tava sendo inocente achando que ele ia realmente me ajudar e não me fazer de escrava. Filho da puta.

— Vai levar a noite toda. — Murmurei irritada, puxando com raiva uma das caixas e jogando o conteúdo no chão, que caiu fazendo um barulho alto.

— Tem tempo até amanhecer ainda. — Respondeu, continuando o que tava fazendo. — E faz barulho aí não que tem gente dormindo. — Eu senti uma nota de diversão na voz dele por me ver irritada.

Bufei, continuando e olhar as coisas. Eu começei a me sentir terrivelmente nostalgica com aquelas coisas. Vez ou outra achava algum negócio que me chamava a atenção, algumas vezes mostrava pro Barbás, depois seguia em frente. Geralmente ele não me respondia. No guarda-roupas dele tinha papo de umas 8 armas grandes. Vários fuzis estampados, uma carabinas, uma variedade que ele parecia ter orgulho de possuir. Eu via como ele desmontava, lustrava e remontava tudo com cuidado. Eu tava prestando a atenção nele quando uma caixinha preta plana me chamou a atenção. HStern gravado na parte de cima... Eu sabia perfeitamente o que tinha ali dentro.

— Meu colar. — Murmurei, pegando ela nas mãos com cuidado, como se fosse um tesouro. Abri a caixa aveludada, agora toda acinzentada pela poeira, vendo o brilhar do pingente que imitava a luz de uma estrela no centro. Um diamante em cada ponta fazia ele reluzir como a jóia preciosa que era. Deixei minha mente viajar pra a melhor época da minha vida... Tentei me conectar com todos os detalhes do momento onde a gente conversou sobre o colar, sobre o significado dele... Nossa vida tinha sido muito feliz. Fechei os olhos, passando os dedos nas pequenas elevações do colar, exatamente como eu gostava de fazer antigamente.


"— Eu amei o presente. Obrigada... de verdade. — Me aninhei à ele, aproveitando a proximidade e a intimidade que a gente tinha conquistado durante todo esse tempo juntos. Passei os dedos sobre o pingente no meu peito.

— Achei que combinava contigo quando
bati o olho. — Ele falou, encostando na cabeceira da cama e me trazendo junto com ele.

— Sério? É por causa do pingente? Ele é demais, parece um raio de luz assim...

— E é. — Confirmou. — Eu tava de olho só nas nossas alianças quando fui lá, voltando do desenrolo com o coronel do batalhão. Aí eu vi ele, me lembrou você...

— Por causa da luz?

— É. Você tem luz, Nina. — Ele passou a mão nos meu cabelos, enroscando ela nos fios, próximo a raiz. Eu amava quando ele pegava assim. — Na minha vida você foi assim, tipo uma luz."



Luz... Eu tinha luz. Puxei o ar sofregamente, baixando a caixa lentamente até o chão com os olhos enchendo de lágrimas por reviver aquele momentinho tão especial na minha história. Eu lembrava todas as palavras da frase que ele tinha dito pra mim naquela noite, todas. Meu coração ainda se aquecia com todo aquele amor, com a intensidade daquela paixão inabalável. Ele reparou no que eu mexia e eu parei de ouvir o barulho metálico das peças da arma dele.

— Achou? — Perguntou.

— Não. — Respondi, fungando e voltando a mexer nas caixas desengonçadamente só pra disfarçar o baque que aquela pecinha tinha provocado dentro de mim.

— Então tem coisa de valor aí... — Concluiu, quase teleportando pro meu lado pra ver o que eu tinha entre os meus dedos meio trêmulos e o chão. Não ousei olhar pra ele, Barbás também não disse mais nada, apesar de ter ficado parado bem ao meu lado, também com os olhos grudados no mesmo pontinho de luz.

Funguei, sentindo meu nariz já começar a ficar escorrendo pelo princípio de um choro que ficou preso na minha garganta. Não deixei que lágrima alguma escorresse naquele momento. Pus a peça de lado e voltar pra caixa, derrubando-a pra deixar cair todos os objetos que tinham dentro dela. Barbás pendurou o fuzil recém montado no ombro pela alça e abaixou pra pegar a caixa que antes estava comigo. Ele levou o colar próximo aos olhos e eu procurei ignorar a cena, evitando a tentação de procurar nos seus olhos alguma centelha da emoção que tava me lavando por dentro naquele momento.

Tudo só piorou porque, de dentro das coisas que eu joguei no chão, um objeto circular num tom de prateado já opaco pelo tempo, com vários pontinhos pretos, veio rolando pra perto do meu pé. Eu reconheci assim que bati os olhos no metal de corpo grosso e os meus dedos encontraram sua superfície gelada, eu realmente entendi o significado de 'precioso'. Enquanto o meu colar tinha um monte de pedras que custavam uma fortuna, aquela coisinha pequena entre os meus dedos já não valia dinheiro algum... o seu significado, porém, não podia ser comprado com ouro ou prata. O seu verdadeiro valor era incalculável, ninguém poderia pagar por ele.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora