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Continuei sentada, quieta, cantando baixinho uma prece e piscando longamente... Eu tinha medo, claro que tinha, seria mentirosa se dissesse que não, mas isso eu não admitiria jamais. E não era medo de morrer pelos que os outros pudessem fazer comigo, mas pelo que o Barbás gostaria. Era da raiva dele que eu tinha medo.

Uns minutos, ouvi um falatório na parte de fora e ele descer, com o fuzil apoiado nos ombros. Atrás dele, pelo menos mais 5 homens, entre os quais o TK e o meu irmão... Perdi a respiração quando vi o Andrei ali, não conseguindo impedir uma careta de choro de se formar em seu rosto. Meu irmão, logo meu irmão, ali... Se o objetivo dele era começar arregaçando o meu psicológico, ele tava começando muito bem. Olhei pra ele e neguei com a cabeça, não como uma repreensão, mas em negação. Ele não devia estar ali... Drei fez uma cara distinguível de tristeza e comprimiu os lábios, ficando mais atrás de todos eles. Todos os seguranças tiraram as armas das costas e deixaram encostadas nos degraus das escadas, enquanto Barbás foi o único a continuar armado. Ele colocou o fuzil pra trás de qualquer jeito e parou na minha frente, me olhando. Eu não disse nada, mas não tive coragem de olhar nos olhos dele naquele momento... não com todos os outros me olhando também. Era meio opressor estar ali com mais 6 homens, onde eu deles era meu irmão, o outro, ao menos no meu coração, era meu amigo, um o meu ex-marido e o resto eu desconhecia.

— Tu não queria falar? A hora é agora. — Barbás falou e eu engoli em seco, me sentindo miudinha ali no meu lugar. Olhei ao redor, observando todos aqueles homens... Eu não me sentia confortável pra falar uma palavra sequer.

— Eu... — Mais uma vez, passei o olhar por todos os homens presentes. — Eu acho que... Cara, não dá pra isso ser, tipo... particular? — Perguntei.

— Bora, começa. — Ele revirou os olhos e pegou uma cadeira, sentando com contrário nela e ignorando completamente o meu pedido. — O que tu quer falar? Tô te dando a chance, bora.

— Calma... — Eu respirei profundamente. Cara, eu não conseguia olhar pra ele... nem conseguia falar com toda aquela gente olhando pra mim. A angústia nos olhos do meu irmão estavam me deixando muito mal. Independente de eu não aprovar os atos dele, ele ainda era meu irmão... — Então, pode ficar só quem eu conheço? — Ele, o Túlio, o meu irmão, tava ótimo.

— Não tem ninguém aqui que tu conheça. — Falou, olhando diretamente pra mim e eu fechei os olhos, sentindo uma fisgada no coração. Aquilo não era verdade, eu sabia bem... mas não podia me deixar abalar por palavras duras. — Bora que meu tempo é curto.

Fiquei calada. Não porque queria, mas porque eu não sabia como começar. Eu não tinha nem pensado numa maneira de me fazer ser ouvida... era improvável que alguém ali realmente se permitisse escutar alguma coisa do que eu falava. Mesmo assim, era importante falar. Eu não tinha mais o que esconder.

— Túlio. — Eu precisava ir nele primeiro. — Você acredita que eu tive com o meu pai e Parma? — Eu sabia que sim, mas quis perguntar mesmo assim.

TK ficou desconfortável e olhou pro Barbás, não sabendo se devia me responder ou me ignorar, deixar que só o William fizesse as perguntas e falasse. Ele, porém, permitiu que ele continuasse.

— Eu ouvi, Nina.

— O meu pai falando com o Parma? — Perguntei.

— Sobre você.

— Entendi. — Suspirei, encostando minha cabeça no concreto. — Imaginei que fosse isso o que tinha rolado. Não é atoa que os policiais fingiram que não me viram, quando aconteceu a batida que te prendeu, Barbás.

— Então tu admite que tava com eles pra não ser presa? — Perguntou ele, mais uma vez sem demonstrar nada em seu rosto.

— Não, claro que não. — Fui mais energética ao negar. — Mas eu queria entender o motivo de todo mundo achar que eu tava. A verdade é que vocês fingiam me descolar da imagem do Mandarim, mas tudo o que ele fez sempre recaiu sobre mim. Eu fui burra de não enxergar antes... talvez eu tivesse conseguido impedir essa tragédia.

— É culpa é nossa, então? — William riu, me olhando com o mesmo olhar de diversão fingida.

— Na verdade, eu não culpo nenhum de vocês. Eu sei o que pareceu. Uma parte disso é culpa minha. — Dei de ombros. — Mas a verdade é que eu não fiz o que vocês me acusam. Eu não traí você, Barbás, nem me aliei ao Parma, eu nem sabia que o Carlos ia fazer o que fez... Eu tava lá tão inocente quanto você.

— Ninguém aqui tem 10 anos pra acreditar em histórinha, Marina. Tu, uma mulher feita, vindo falar em injustiça? Que não sabia? Quem botou o Mandarim aqui dentro foi você, o plano foi inteiro seu. — Falou, ainda sem alterar seu tom de voz. Ele parecia tranquilo. — Ai tudo acontece, tu foge e vem falar em engano... — Eles riram de novo.

— Eu sei o que pareceu, eu sei que eu sair daqui só piorou todas as suspeitas, mas eu precisei, porra. — Levei as mãos ao rosto.

— Precisou porque ficou com medo de morrer. Tu não é mistério nenhum. — Ele afirmou, se inclinando pra frente, contra o encosto da cadeira.

— É, foi por isso, mas se fosse só por mim, eu teria ficado e tentado fazer você entender que eu não tinha nada a ver. Se fosse só eu, talvez eu tivesse te feito ver a verdade antes e a gente não ia estar aqui hoje. — Falei com firmeza, recobrando a força. No meu interior, eu senti o calor da coragem. — Mas não era só eu.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora