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[...]

Maria Ísis bateu a mão na água da banheira, me divertindo com a espuma que a gente tinha conseguido fazer. Madalena roubou uns sais de banho da suíte do Barbás e trouxe pra gente. Foi legal demais, a minha bichinha amou. Foi bom pra ela desestressar e gostar um pouco mais do ambiente onde ela tava. Minha bebezona ficou amarradassa na banheira, assim como eu imaginei que ficaria. A gente brincou de jogar espuma, fizemos uma santa lambança a qual eu tive que limpar depois. Sentei na beirada da banheira e deixei ela brincar o quanto quis na água. Quando, finalmente, chegaram as coisas que minha mãe tinha trago dela, eu abri o ralo pra começar a escoar a água.

Sequei ela com uma das toalhas que a Madalena tinha me emprestado e coloquei o macacãozinho de unicórnio que ela gostava de botar pra dormir. Ela ficava incrivelmente fofa nele, eu mesmo me destruía de amor sempre que eu a via nele... Fiz a checagem de rotina ali no banheiro mesmo. Chequei os olhos, pra ver se tinha sinal de anemia, os batimentos, a temperatura. Tudo estava em perfeitas condições. Penteei os cabelinhos com o maior cuidado pra não correr o risco de danificá-los mais do que o tratamento já fazia. Bom... pelo menos ainda estavam aqui em boa parte, a técnica prática da touca realmente tinha alguma funcionalidade afinal. Terminei massageando o seu couro cabeludo com o tônico que o Guilherme tinha passado. Com ela era todo um cuidado especial, ainda mais agora. Felizmente, ela parecia estar suportando muito bem. Minha menina era uma guerreirinha.

Desci com ela pro meu quarto, que ficava nos fundos da casa. Lá era um ambiente seguro pra nós duas, longe dos olhares curiosos, onde poderíamos ficar quietinhas um pouquinho. Tomei eu mesma um banho e deitei com ela na cama. Acabamos tirando um cochilo e depois, paramos pra conversar e colocar as novidades em dia. Lá fora, o tempo fechava e uma chuva fina começava a cair.

— E a vovó fez o quê? — Ri com o que ela tava contando. Ela devia estar deixando minha mãe doida.

— É, a vovó pegou com a mão. — Contou, rindo também.

— Ficou tudo bem lá do apartamento hoje, filha? — Perguntei. — A vovó tá bem?

— Sim, mamãe. — Concordou com a cabeça. Eu até queria saber mais coisa, mas não queria pressionar ela pra me contar. Não era assunto dela, Maria era só uma criança. Depois, eu perguntaria pros adultos que tiveram lá, vulgo, meus irmão. — Vovó queria que eu ficasse com ela, mas eu queria ver a mamãe.

— E ela deixou?

— É... a tia do desenho brigou com a vovó pra trazer eu. — Contou.

— Tia do desenho...? — Quem?!

— A tia loira, mamãe. Que tem uns desenhos aqui. — Apontou pro próprio braço.

— A Larissa... — Concordei com a cabeça. — Que danada, acho que agora eu posso dizer que eu serei obrigada a amar ela. — Maria virou a cabeça pra mim, como se não entendesse.

— Eu quero ter desenho aqui também. — Começou dizendo, me olhando com os olhinhos brilhantes de cachorro pidão.

— Você é muito nova pra tatuagem, Maria. — Comecei dizendo e ela me olhou confusa. — Esses desenhos no braço, se chamam tatuagem. É tipo um machucado que quando cicatriza, fica um desenho na pele. — Contei, mostrando as poucas que eu tinha pra ela. — Dói pra caramba pra fazer.

— Eu aguento, mamãe. Pode machucar um pouquinho assim só. — E fez um espaço com os dedos.

— Machuca muito e, por isso, você não pode fazer. — Falei com mais firmeza dessa vez. — Quando você for mais velha a gente pensa a respeito. Eu posso ir presa por muitas coisas, mas não por ter tatuado minha filha.

— Ah... — Ela fez manha, cruzando os braços e fazendo biquinho. — Mãe... eu não sou mais um bebezinho. — E a fase de se achar crescida estava começando.

— Você é um bebezão, isso sim. — Cutuquei a barriga dela, que se contorceu. — Olha esse macacão colorido ai, isso é coisa de adulto por acaso? — Provoquei ela, que ameaçou tirar ele. — Vai ficar pelada nesse frio? Vai pegar um resfriado brabo e eu não vou te dar remédio não, hein?!

Ela parou e cruzou os braços de novo, descendo da cama toda boladinha. Maria andou até a porta toda trabalhada da rebeldia, parando pra olhar a chuva da parte coberta e sumindo das minhas vistas. Dei uns minutinhos pra ela voltar, enquanto arrumava o cobertor da minha cama de volta pro lugar. Como ela não voltou, eu fui atrás de ver.

— Ô Maria Ísis, se você tiver na chuva, eu vou te amassar. — Gritei de dentro do quarto, indo pro lado de fora. Lá eu acabei encontrando um cena meio surpreendente. Barbás tava parado numa das pilastras com a mão estendida, enquanto a Maria olhava as letras que ele tinha nos dedos com certa cautela.

— Não fala com estranhos, hein?! — Debochou de mim.

— Ela gosta de me contradizer. — Neguei com a cabeça, quando ela me olhou com um sorrisinho nos lábios uns momentos depois.

— Ele tem desenho, mamãe. Um monte. — Contou com empolgação.

— Eu sei disso. — Cruzei os braços. — Eu não sou cega, minha filha.

— Eu tenho desenho. — Ele deu de ombros, entrando na onda dela.

— Tava ouvindo atrás da porta? — Perguntei, sentindo minha privacidade violada... se é que eu ainda tinha direito de ter aquilo. — Futriqueiro. 

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora