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— Então tu quer mesmo um palacete, engraçadão, mané... Quer ir pra casa também não, porra? Certeza que é isso o que tu vai pedir em seguida. — Entrei na onda.

— Eu sei que tu nunca me deixaria ir. — Disse e eu senti uma ponta de melancolia na frase. Se pá fosse a ambiguidade que acabou ficando meio evidente pra mim também. — Mas eu tô de boa com isso, em ficar aqui pra gente conversar e pra tentar te provar as coisas que eu digo. Sei que é uma garantia pra tu também, de que tudo vai rolar do jeito que você planeja e tal. Eu só quero ficar aqui com dignidade até lá...

Fiquei na dúvida se ela merecia que eu tivesse o mínimo de compreensão com ela. Sabia que era uma merda aquele porão, geralmente ninguém ficava mais que um dia ou dois ali. Eu não demorava a descobrir o que eu queria e quebrar os caras que vinham parar aqui. A questão era: eu não tinha mais nada que eu quisesse souber dela. Tudo o que me interessava naquela história, ela já tinha dito no primeiro dia e, na boa, eu não tava nem ai. Eu só queria saber se a menina era real mesmo, só ela me interessava. Eu queria entender se eu tinha mais um filho, pra isso ela me servia. O resto, eu já sabia o que eu ia encontrar no final, não ia me apegar à esperança de que tinha sido diferente, quando eu sabia que não tinha. Era óbvio, tinha estado evidente desde o início, ninguém foge à toa. Corre quem deve.

Mesmo assim, se era isso o que ela queria pra me dar paz, não era um preço caro pra pagar. Pelo menos ia me dar tempo pra correr atrás do que me importava, depois eu riscava o nome daquela mulher da minha parede e ia estar acabado. Aquela história já tava há anos na minha vida, me sugando que nem um parasita, eu queria meter uma pedra naquela porra de uma vez por todas. Pra mim já tinha chegado no limite.

— Eu te dou minha palavra que vou fazer tudo certo. Se eu não fizer, vou perder minha vida de qualquer jeito.

— Eu já entendi o que tu tá fazendo. — Disse, controlando toda e qualquer expressão do meu rosto e estalando os dedos das mãos. — Nem se dá ao trabalho de explicar. Eu sei o que tu quer.

— O que eu quero é tomar um banho. — Rebateu num tom muito mais tranquilo dessa vez. Ela tava entrando na linha pra tornar as coisas mais fáceis pra ela... esperta. Bater pé comigo não ia adiantar de nada. — Só me bota em qualquer lugar que tenha um banheiro com chuveiro e um colchonete que seja, eu vou me dar por muito satisfeita.

Não falei nada, mas encarei ela por uns segundos antes de dar as coisas e subir as escadas, deixando ela com uma expressão irritada pelo meu silêncio no andar debaixo. Eu ia arrumar um lugar pra levar ela e manter vigilância de lá. Tinha mesmo que liberar aquele porão pra mais gente usar... Sabia que deixar ela ficar ali pelo tempo de eu investigar as coisas que ela tinha dito podia ser um tiro cego, que saía pela culatra, mas era um risco que eu tinha que assumir. Pelo menos até eu dar um jeito de trocar o meu fornecedor e me livrar daquela merda de problema com os cornos do Paraguai. Quando ela não me oferecesse mais risco, aí sim eu ia poder fazer o que eu quisesse. Até lá, eu ia ter que dar um jeito de me manter namoral e manter ela sob controle.

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora