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[MARINA]


Os meus dias era simples. Realmente, eram bem casuais e tudo. Há um ano eu tinha comprado um sítio pra mim, bem ao lado do que pertencia à minha família e onde era a 'base de operações' do meu negócio. Pra lá sempre vivia cheio de gente, fazendo de tudo um pouco. Como éramos uma 'empresa' (cof cof!) grande, sempre tinha algo pra ser feito, já que eu tinha dado um jeito de instaurar uma rotatividade de chegada e saída de produto de modo que a coisa nunca parava. Eu era feliz ali, me sentia realizada com as coisas que eu tinha conquistado e a reputação em cima do meu nome, que lutei pra construir com cuidado. Desde sempre eu quis ser respeitada e levada à sério pelos outros... agora, eu finalmente sentia que tinha chegado lá. Eu e minha família não éramos os únicos a traficar drogas e armas ali por Foz do Iguaçu, mas certamente éramos uns dos mais relevantes, principalmente porque eu tinha buscado fazer contatos e alianças com os todos os outros que fosse igualmente relevantes naquela cidade. Pela minha rota, passava um terço da droga que abastecia as favelas do Rio de Janeiro. Era, sim, grande coisa.

Ali, num lugar mais reservado e calmo, eu e minha filha éramos felizes. Eu gostava do que fazia e gostava de criar ela... É... Definitivamente felizes, mesmo que eu sentisse que algo ainda me faltava. Aquela era uma sensação da qual eu simplesmente não conseguia me livrar e eu sabia bem o motivo. Quando se deixa coisas pra trás, é difícil não sentir em si o buraco onde elas costumavam estar, especialmente se houve amor...

— Deu tudo certo na passagem hoje? Pelo rio? Hã... — Perguntei ao Josias. Eu e ele conversávamos sobre o carregamento que devia passar hoje pela fronteira com a Argentina, do outro lado da cidade. Era muito no meio da mata, então, mandei ele no meu lugar. Já tinha entrado muito no meio do mato esse mês, era um cu ter que ficar lidando com um milhão de mosquitos te atacando o tempo todo, minha cota disso eu já tinha batido. — Mas tu pesou antes de pegar? Certeza?

— Mãe, olha aqui. — Maria levantou o desenho que ela tava fazendo na mesa mais adiante.

— 300kgs, certinho? E o... — Parei um momento pra olhar pro que minha princesa tinha feito. Entre os muitos rabiscos que ela tinha feito, que eram muito fofos por sinal, eu conseguia ver perfeitamente nós duas em bonequinhos palito infinitamente coloridos. Sorri pra ela, passando a mão nos seus cabelos. — Só trás tudo pra cá, tá bem? Qualquer coisa a gente pesa aqui de novo e se não der certinho, eu quebro pau com eles lá. Esses paraguaios filhos da puta são foda. — Olhei ao redor pra ver se algum dos meus trabalhadores que viviam do outro lado da fronteira não estavam por perto... eles se magoavam fácil. 

— Mãe, mãe! — Ela chamou de novo. Desliguei o celular e sentei do lado dela, vendo o que ela queria tanto me mostrar. Observei o desenho que ela tinha passado giz azul em tudo, pra parecer o céu, exceto em uma parte que ficava bem ao lado das nossas figuras estilizadas. Um buraco perfeitamente em branco... — Gostou?

— Muito lindo, meu amor. — Elogiei, curiosa com aquele único ponto sem cor alguma. — Mas por que você não pintou aqui? — Bati o dedo no lugar.

— É que... — Ela parou um pouco. — Eu ia desenhar outra pessoa ai, mamãe.

— Ah, ia? Quem? — Quis saber, puxando ela pro meu colo.

Ela não falou de primeira e eu estranhei. Cutuquei a barriga dela, que riu e se contorceu.

— Quem, filha? — Perguntei de novo, rindo junto com a gargalhada gostosa dela.

— Eu queria desenhar o meu pai, mamãe. — Ela falou no miudinho e eu me surpreendi na hora. Fiz a cara mais confusa que eu podia fazer e me afastei alguns centímetros pra olhar pra ela, como se tivesse tomado um choque... ou um tapa, sei lá. A culpa não era dela, eu sempre dava respostas evasivas quando ela perguntava sobre o assunto, mas agora que ela tava crescendo e ficando mais esperta, tava ficando mais difícil.

— Por quê? — Foi a única coisa que eu consegui perguntar, com a voz meio rouca pelo susto. Eu senti meu coração martelar no peito.

— Ontem... a gente fez um desenho na escola sobre a nossa família. Todo mundo desenhou a mamãe da gente e o papai. — Ela falou devagar, tentando me fazer entender o ponto dela. Essa menina tinha o dom de me dobrar no meio quando falava assim. — E eu só tinha uma mamãe.

— Ué, amor. Isso é normal, nem todo mundo tem um papai e uma mamãe. — Comecei meu trabalhos pra desviar a atenção dela daquele assunto de novo.

— Todo mundo tem um papai e uma mamãe sim. Eu vi o dos outros, tá? — Rebateu comigo, cruzandos os braços. Tava muito cedo pra ela entender de onde vinham os bebês...

— Ah, para, Maria. Só você desenhou só a mamãe? — Devolvi a pergunta, sabendo que aquilo era absolutamente comum e que certamente outras crianças da sua classe também estariam na mesma situação que ela.

— Só. — E ela tava determinada a me colocar contra a parede, mesmo que talvez nem soubesse o que fazia. Esperta...

Coração em GuerraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora